miniaturadaimagem|Reprodução do manuscrito original do cânone de Mozart "Difficile lectu". As palavras "lectu mihi mars" eram suposto soar como "Leck du mich im Arsch" ("lambe o meu rabo"), uma frase comumente usada no círculo da família de Mozart. Wolfgang Amadeus Mozart apresentava humor escatológico nas suas cartas e múltiplas composições recreativas. Este material tem sido um enigma para os estudiosos de Mozart. Alguns académicos tentam entende-lo no que toca ao seu papel na família Mozart, na sua sociedade e nos seus tempos; outros tentam entende-lo como um resultado de uma "lista impressionante"Kammer, Thomas (2007) "Mozart in the Neurological Department – Who Has the Tic?". In J. Bogousslavsky and Hennerici M. G. (eds.), Neurological Disorders in Famous Artists – Part 2. Frontiers in Neurology and Neurosciences, vol. 22. Basel: Karger, pp. 184–192. de condições psiquiátricas do qual se diz que Mozart teria.
Exemplos miniaturadaimagem|Auto-retrato em lápis de Maria Anna Thekla Mozart, de 1777 ou 1778 Uma carta datada de 5 de novembro de 1777Mozarts Bäsle-Briefe, p. 109, p. 110 para a prima de Mozart, Maria Anna Thekla Mozart, é um exemplo do uso de Mozart de escatologia. O original alemão"lezt wünsch ich eine gute nacht/scheissen sie ins bett dass es kracht/schlafens gesund/reckens den arsch zum mund"; é um verso rimado.
O cânone de Mozart "Leck mich im Arsch" K. 23 (K6 382c) inclui a letra:
Isto traduziria para "lambe-me o rabo, rápido, rápido"
"Leck mich im Arsch" é um vulgarismo padrão em alemão, eufesmiticamente chamado de saudação da Suábia (). Embora em alemão contemporâneo seria "Leck mich am Arsch."
Contexto O musicólogo David Schroeder escreve:A passagem do tempo criou um golfo quase intransponível entre nós e o tempo de Mozart, forçando-nos a interpretar mal as suas cartas escatológicas ainda mais drasticamente que as suas outras cartas. Muito simplesmente, estas cartas embaraçam-nos, e nós tentámos suprimir-las, trivializar-las, ou explicar-las fora do cânone epistolar com desculpas patológicas.Por exemplo, quando Margaret Thatcher foi informada da escatologia de Mozart durante uma visita ao teatro para ver a peça de Peter Shaffer, Amadeus, o diretor Peter Hall conta:Ela não estava contente. No seu melhor estilo de diretora, ela ralhou comigo por ter feito uma peça que demonstrava Mozart como um diabrete escatológico com um amor por palavras de quatro letras. Era inconcebível, ela disse, que um homem que escreveu música tão requintada e elegante pudesse ser tão desbocado. Eu disse que as cartas de Mozart provavam que ele era isso: ele tinha um senso de humor extraordinariamente infantil ... "Eu não acho que você ouviu o que eu disse", respondeu a Primeira Ministra. "Ele não podia ser assim". Eu ofereci (e enviei) uma cópia das cartas de Mozart para o Número Dez no dia seguinte; eu até recebi agradecimento pela Secretária Privado apropriada. Mas foi em vão: a Primeira Ministra disse que estava errado, então errado eu estava.Shaffer 2001
Cartas Benjamin Simkin, um endocrinologista, estima que 39 das cartas de Mozart incluíssem passagem escatológicas. Quase todas eram dirigidas à própria família, especificamente ao seu pai Leopold, à sua mãe Anna Maria, à sua irmã Nannerl, e a sua prima Maria Anna Thekla Mozart. Segundo Simkin, Leopold, Anna Maria and Nannerl também incluíam humor escatológico nas suas cartas. lista uma carta que contem humor escatológico de tanto Mozart como Nannerl; e de Anna Maria, uma, e outra aparece em . Assim, Anna Maria escreveu ao seu marido (26 de setembro de 1777; o original é em rima):
Até o relativamente puritano Leopold usou uma expressão escatológica em uma carta.Isto era "defecar laranjas", significando aproximadamente "ficar chateado", usando isso numa carta escrita de Itália em 1770;
Várias das cartas escatológicas de Mozart foram escritas para Maria Anna Thekla Mozart, a sua prima (e interesse amoroso provável, segundo o musicólogo Maynard Solomon).Para uma discussão das provas que Mozart e a sua prima se amavam, ver . Estas são normalmente chamadas de "Cartas Bäsle", vindo da palavra alemã Bäsle, uma forma diminutiva significando "pequena prima". Nestas cartas, escritas depois de Mozart passar duas agradáveis semanas com a sua prima em Augsburgo, a escatologia é combinada com um jogo de palavras e referências sexuais. O acadêmico americano Robert Spaethling fez uma tradução de parte de uma carta que Mozart mandou de Mannheim a 5 de novembro de 1777:
Uma das cartas que Mozart escreveu ao seu pai enquanto visitava Augsburgo conta um encontro que Mozart e a sua prima tiveram com um padre chamado Pai Emilian:
Música A música escatológica de Mozart era muito provavelmente recreativa e partilhada entre um grupo fechado de amigos inebriados. Todas elas são cânones (rondas), nos quais cada voz entra com as mesmas palavras e música seguindo um atraso da voz anterior. O musicólogo David J. Buch escreve:
Reações da família e amigos A historiadora Lucy Coatman argumenta que Maria Anna Thekla e Mozart partilhariam um senso de humor, algo que ela acredita que tem sido "descartado durante muita da historiografia neste conjunto de correspondência". Enquanto académicos não estão cientes das suas respostas ao primo, pode ser assumido do que se sabe da sua relação e da sua correspondência continuado que ela provavelmente não se ofendia pelas referências vulgares de Mozart.
Em 1798, Constanze mandou as cartas Bäsle do seu falecido marido ao publicadores Breitkopf & Härtel, que na altura estavam a recolher material na esperança de preparar uma biografia de Mozart. Na carta a acompanhar, ela escreveu "Embora num gosto duvido, as cartas para o seu primo estão cheias de inteligência e merecem menção, embora não possam claro ser publicadas na sua totalidade." K.A Aterman sugere que esta ambivalência é um resultado da "mudança no gosto e o 'refinamento' a espalhar-se, e em, a crescente classe média." no início do século 19.
No século XVIII miniaturadaimagem|Gottfried Prehauser, um ator de Viena do século XVIII, a fazer de Hanswurst Schroeder (1999) sugere que no século XVIII o humor escatológico era muito mais público e "convencional". O teatro popular da língua alemã do tempo de Mozart era influenciado pela Commedia dell'arte italiano e dava ênfase à personagem Hanswurst, uma personagem grosseira e robusta que entretia o seu público a fazer de conta que comia objetos grandes e improváveis (por exemplo, um vitelo inteiro), e depois defecava-os.
Schroeader sugere uma sub-camada política à escatologia no teatro popular: os seus espectadores viviam sob um sistema de aristocracia hereditária que os excluía de participação política. A vulgaridade do teatro popular escatológico era um contraponto à cultura refinada imposta. Uma das cartas de Mozart descreve aristocratas em termos escatológicos; ele identifica os aristocratas presentes num concerto em Augsburgo (1777) como "a Duquesa Idiota, a Condessa Mijonadeprazer, a Princessa Fedorenta, e os dois Príncipes Barrigudo von Pénisdeporco".O original alemão lê "Ducheße arschbömerl, die gräfin brunzgern, die fürstin richzumtreck, und die 2 Princzen Mußbauch von Sauschwanz".
Na cultura alemã O folclorista e antropologista cultural Alan Dundes sugeriu que o interesse em ou tolerância para temas escatológicos é um traço específico na cultura nacional alemã, um que é permaneceu até aos dias de hoje:A nacionalidade de Mozart era, estritamente falando, a do Prince-Archbishopric of Salzburg. As suas cartas indicavam que ele sentia que a sua nacionalidade era alemão (ver e.g. carta para o seu pai de 17 de agosto de 1782; Mersman (1972:204)); isto era natural numa altura em que o território que de que faz parte a Áustria moderna e a Alemanha era uma mistura de maioritariamente pequenos estado-nações.
Dundes (1984) oferece uma cobertura ampla do humor escatológico de Mozart, mas também cita textos de Martinho Lutero, Johann Wolfgang von Goethe, Heinrich Heine, e outros que ajudaram a formar a cultura alemão. Karhausen (1993) afirma que "escatalogia era comum na Mitteleuropa [Europa central]", notando por exemplo que o colega de Mozart Michael Haydn também escreveu um cânone escatológico.. O cânone de Haydn era intitulado "Scheiß nieder, armer Sünder", que Karhausen dá como "Defeca rápido, pobre pecador".
Algumas frases usados por Mozart no seu material escatológico não eram originais mas parte do folcore e cultura do seu tempo: o professor alemão Mieder (2003) descreve as cartas Bäsle como envolvendo "a jogada intencional de Mozart com o que é na sua maioria discurso folclore preformulado". Um exemplo dado por Robert Spaethling é a origem folclórica da frase, "Gute Nacht, scheiß ins Bett dass' Kracht", segundo Spaethling sendo uma "rima de crianças que ainda existe nas áreas de língua alemã do sul.". Como Spaethling nota, a rima também aparece no cânone de Mozart "Bona nox", e numa tradução italiana ("cacate nel letto che egli fà fracasso") é encontrada uma carta de 1770 para a sua mãe e irmão escrita na Itália. Também, quando Mozart cantava para Aloysia Weber as palavras "Leck mich das Mensch im Arsch, das mich nicht will" ("Quem não me quiser pode-me lamber o rabo") na ocasião de ser rejeitado por ela romanticamente, ele estava evidentemente a cantar uma melodia folclore já existente, não uma canção da sua própria invenção.Ver , citando Emil Karl Blümml.
Relatos médicos Um observador do início do século XX que suspeitava que os materiais escatológicos de Mozart podiam ser interpretados por patologias psicológicas era o escritor austríaco Stefan Zweig, que juntou uma grande coleção de manuscritos musicais. A sua coleção incluía as cartas Bäsle (na altura, não lançadas) como também os autógrafos dos cânones escatológicos de Mozart "Difficile lectu" e "O du eselhafter Peierl". Zweig mandou cópias das cartas Bäsle ao psiquiatra Sigmund Freud com a sugestão seguinte:
Freud aparentemente recusou a sugestão de Zweig. Como Schroeder nota, psicobiógrafos posteriores apreenderam as cartas como provas para tendências psicopatológicas em Mozart.
Alguns autores nos anos 90 interpretaram o material como prova que Mozart teria síndrome de Tourette.Gunne, L. M. (1991) "Hade Mozart Tourettes syndrom?", Läkartidningen 88: 4325–4326. [citado em Kammer 1983]
Fog, R. (1995) "Mozart's bizarre verbal behavior: a case of Tourette syndrome?", Maledicta 11:59–62. [citado em Kammer 1983]
Fog, R. and L. Regeur (1983) "Did W.A. Mozart suffer from Tourette's syndrome?", Congresso Mundial de Psiquiatria, Vienna. [citado em Kammer 1983]
Schaub, S. (1994) "Mozart und das Tourette-Syndrom". Acta Mozartiana 41: 15–20. [citado em Kammer 1983]. Simkin catalogou as cartas escatológicas e comparou a sua frequência com vulgarismos semelhantes de outros membros da família Mozart—são mais frequentes. Os materiais escatológicos foram combinados por Simkin com relatos biográficos do tempo de Mozart que sugeriam que Mozart sofria dos tiques característicos do síndrome de Tourette. A sua alegação foi usada em jornais pelo mundo, causando uma sensação internacional, e sites da internet aumentaram a especulação.