Descristianização da França durante a Revolução Francesa trata-se de que como foi convencionada chamar o resultado de uma série de políticas conduzidas por vários governos da França entre o início da Revolução Francesa em 1789 e a Concordata de 1801, formando a base de uma política de Estado que prezasse a laicidade. O objetivo da campanha entre 1790 e 1794 ia desde a apropriação pelo Estado dos grandes latifúndios e das grandes quantias de dinheiro em poder da Igreja Católica romana até o fim da prática religiosa cristã e da própria religião.

A Revolução Francesa começou inicialmente com ataques à corrupção na Igreja e à riqueza do alto clero, uma ação com a qual até mesmo muitos cristãos podiam se identificar, já que a Igreja detinha um papel dominante no contexto da França pré-revolucionária. Durante um período de dois anos conhecido como o Reinado do Terror, os episódios de anticlericalismo tornaram-se mais violentos do que qualquer outro na história da Europa moderna. As novas autoridades revolucionárias suprimiram a Igreja, aboliram a monarquia católica, nacionalizaram as propriedades da Igreja, exilaram 30.000 padres e mataram centenas mais. Em outubro de 1793, o calendário cristão adotado até então pela França foi substituído por um contado a partir da data da Revolução, e foram marcadas as Festas da Liberdade, da Razão e do Ser Supremo. Novas formas de religião moral surgiram, incluindo o Culto do Ser Supremo, o Culto da Razão, a Teofilantropia e o Culto Decadário, com o governo revolucionário ordenando brevemente a observância do primeiro em abril de 1794 e do último em setembro de 1798.

Igreja Católica sob a monarquia

Antes de 1789 Na França do século XVIII, a grande maioria da população aderiu à Igreja Católica, pois o catolicismo era desde a revogação do Édito de Nantes em 1685 a única religião oficialmente permitida no reino. Apesar do Édito, minorias de protestantes franceses (principalmente huguenotes e luteranos alemães na Alsácia) e judeus viviam na França no início da Revolução francesa. O Edito de Versalhes, comumente conhecido como o Edito da Tolerância, foi assinado por Luís XVI em 7 de novembro de 1787 e não deu aos não protestantes e judeus na França o direito de praticar abertamente suas religiões, mas apenas os direitos ao status legal e civil, que incluía o direito de contrair casamento sem ter que se converter à fé católica. Ao mesmo tempo, estava se popularizando o ateísmo e o anticlericalismo.

O Antigo Regime institucionalizou a autoridade do Clero no porte de primeiro estado, abaixo apenas do Rei. Como o maior proprietário de terras do país, a Igreja Católica controlava propriedades que forneciam enormes receitas de seus inquilinos. A Igreja também tinha uma enorme receita com a coleta de dízimos. Como a Igreja mantinha o registro de nascimentos, óbitos e casamentos e era a única instituição que fornecia hospitais e educação em algumas partes do país, tendo assim capilaridade na França em locais que até mesmo o Estado francês não conseguia atender de maneira devida.

Entre 1789 e 1792

Um marco da Revolução francesa foi a abolição dos privilégios dos primeiro e segundo estamento na noite de 4 de agosto de 1789. Em particular, aboliu os dízimos recolhidos pelo clero católico.

Progressos do ponto de vista religiosos foram alcançado com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão promulgada em 1789. No seguinte excerto é possível notar à liberdade religiosa na França:

No dia 10 de Outubro de 1789, a Assembleia Nacional Constituinte apoderou-se dos bens e terrenos da Igreja Católica e decidiu vendê-los como assignats, título de empréstimo emitido pelo Tesouro em 1789, cujo valor estava associado aos bens nacionais.

Em 12 de julho de 1790, a Assembleia aprovou a Constituição Civil do Clero que subordinava a Igreja Católica na França ao governo francês. O documento, não foi aceito pelo Papa e outros clérigos de alto escalão em Roma.

Postura política da Revolução com as religiões

O programa de descristianização travado contra o catolicismo e incluiu:

destruição de estátuas, placas e outras iconografias de locais de culto; destruição de cruzes e sinos de igrejas; a instituição de cultos revolucionários e cívicos, incluindo o Culto da Razão e posteriormente o Culto do Ser Supremo (primavera de 1794). Um evento especialmente notável que ocorreu durante a descristianização da França foi o Culto da Razão, realizado na Catedral de Notre Dame em 10 de novembro de 1793.

Entre 1793 e 1794, a Abadia de Saint-Denis, tradicional local de sepultamento dos reis franceses, foram abertos ou destruídos, e os restos mortais ali depositados, em diversos casos, profanados.Santos, Serge (2011). "La profanation des tombes royales à Saint-Denis" . Au cœur de l'histoire sur Europe 1. Consultado em 12 de junho de 2026

A campanha de descristianização pode ser vista como a extensão lógica das filosofias materialistas de alguns líderes do Iluminismo, como Voltaire, enquanto para outros com preocupações mais prosaicas, ela forneceu uma oportunidade para desencadear ressentimentos contra a Igreja Católica (no espírito de anticlericalismo convencional) e seu clero.

A Revolução e a Igreja

Em agosto de 1789, o Estado francês cancelou o poder tributário da Igreja. A questão da propriedade da Igreja tornou-se central para as políticas do novo governo revolucionário. Declarando que todas as propriedades da Igreja na França pertenciam à nação, os confiscos foram ordenados e as propriedades da Igreja foram vendidas em leilão público.

Em julho de 1790, a Assembleia Nacional Constituinte publicou a Constituição Civil do Clero que despojava os clérigos de seus direitos especiais - o clero deveria ser empregado do Estado, eleito por sua paróquia ou bispado, e o número de bispados deveria ser reduzido — e exigia que todos os padres e bispos fizessem um juramento de fidelidade à nova ordem ou enfrentariam demissão, deportação ou morte.

Os padres franceses precisavam da aprovação papal para assinar tal juramento, e o Papa Pio VI passou quase oito meses deliberando sobre o assunto. No dia 13 de abril de 1791, o Papa denunciou a Constituição, resultando em uma divisão na Igreja Católica francesa. Mais de cinquenta por cento tornaram-se padres abjurados ("jurados"), também conhecidos como "clero constitucional", e padres não-jurados como "clero refratário".

Em setembro de 1792, a Assembleia Legislativa apoiou pautas progressistas, como a legalização o divórcio, contrariando a doutrina católica. Ao mesmo tempo, o Estado tirou da Igreja o controle dos registros de nascimento, óbito e casamento.

Uma visão cada vez maior de que a Igreja era uma força contrarrevolucionária exacerbou as queixas sociais e econômicas e a violência irrompeu em vilas e cidades por toda a França.

Em Paris, durante um período de quarenta e oito horas a partir de 2 de setembro de 1792, enquanto a Assembleia Legislativa (sucessora da Assembleia Nacional Constituinte) se dissolvia no caos, três bispos da Igreja e mais de duzentos padres foram massacrados por multidões enfurecidas; isso constituiu parte do que ficaria conhecido como Massacres de setembro.

As leis anticlericais foram aprovadas pela Assembleia Legislativa e sua sucessora, a Convenção Nacional, bem como pelos conselhos departamentais em todo o país. Muitos dos atos de descristianização em 1793 foram motivados pela apreensão do ouro e da prata da Igreja para financiar os ideais revolucionários. Em novembro de 1793, o conselho do departamento de Indre-et-Loire aboliu a palavra dimanche (português: domingo). O calendário gregoriano, instrumento decretado pelo Papa Gregório XIII em 1582, foi substituído pelo calendário republicano francês que aboliu o sábado, os dias santos e quaisquer referências à Igreja. A semana de sete dias passou a ser de dez dias. Logo ficou claro, no entanto, que nove dias consecutivos de trabalho eram demais e que as relações internacionais não poderiam ser realizadas sem o retorno ao sistema gregoriano, que ainda era usado em todos os lugares fora da França. Consequentemente, o calendário gregoriano foi reimplementado em 1795.

Desfiles anticlericais foram realizados, e o arcebispo de Paris, Jean-Baptiste-Joseph Gobel, foi forçado a renunciar a suas funções e obrigado a substituir sua mitra pelo Barrete frígio. Nomes de ruas e lugares com qualquer tipo de conotação religiosa foram alterados, como a cidade de Saint-Tropez, que tornou-se Héraclée. Os feriados religiosos foram banidos e substituídos por feriados para celebrar a colheita e outros símbolos não religiosos. Muitas igrejas foram convertidas em "templos da razão", nos quais eram realizados cultos deístas. A população local muitas vezes resistiu a essa descristianização e forçou os membros do clero que haviam renunciado a celebrar a missa novamente.

Robespierre e o Comitê de Segurança Pública denunciaram os descristianizadores como inimigos estrangeiros da Revolução e estabeleceram sua própria nova religião. Este Culto do Ser Supremo, sem as supostas "superstições" do Catolicismo, suplantou tanto o Catolicismo quanto o rival Culto da Razão. Ambas as novas religiões tiveram vida curta. Apenas seis semanas antes de sua prisão, em 8 de junho de 1794, o ainda poderoso Robespierre liderou pessoalmente uma vasta procissão por Paris até o Jardins das Tulherias em uma cerimônia para inaugurar a nova fé. Sua execução ocorreu pouco depois, em 28 de julho de 1794.

No início de 1795, um retorno a alguma forma de fé baseada na religião estava começando a tomar forma e uma lei aprovada em 21 de fevereiro de 1795 legalizou o culto público, embora com limitações estritas. Continuavam proibidos o toque dos sinos das igrejas, as procissões religiosas e as exibições da cruz cristã.

Até 1799, os padres ainda estavam sendo presos ou deportados para colônias penais. A perseguição só piorou depois que o exército francês liderado pelo general Louis-Alexandre Berthier capturou Roma no início de 1798, declarou uma nova república romana e também prendeu o papa Pio VI, que morreria em cativeiro em Valence, na França, em agosto de 1799. No entanto, após Napoleão tomar o controle do governo no final de 1799, a França entrou em negociações de um ano com o novo Papa Pio VII, resultando na Concordata de 1801. Isso encerrou formalmente o período de descristianização e estabeleceu as regras para um relacionamento entre a Igreja Católica e o Estado francês.

Organização da Igreja Sob ameaça de morte, prisão, recrutamento militar e perda de renda, cerca de vinte mil padres constitucionais foram forçados a abdicar e entregar suas cartas de ordenação, e de seis mil a nove mil deles concordaram ou foram coagidos a se casar. Muitos abandonaram completamente seus deveres pastorais. No entanto, alguns dos que abdicaram continuaram secretamente a ministrar ao povo.

No final da década, aproximadamente trinta mil padres foram forçados a deixar a França, e várias centenas dos que não saíram foram executados. A maioria das paróquias francesas ficou sem os serviços de padre e privada dos sacramentos. Qualquer padre que não jurasse enfrentava a guilhotina ou a deportação para a Guiana Francesa. Na Páscoa de 1794, poucas das quarenta mil igrejas da França permaneciam abertas; muitos foram fechadas, vendidas, destruidas ou convertidas para outros usos.

As vítimas da violência revolucionária, religiosa ou não, eram tratadas popularmente como mártires cristãos, e os locais onde eram mortas tornavam-se destinos de peregrinação. A catequese em casa, a religião popular, as práticas sincréticas e heterodoxas tornaram-se mais comuns. Os efeitos de longo prazo na prática religiosa na França foram significativos. Muitos que foram dissuadidos de suas práticas religiosas tradicionais nunca as retomaram.

Ver também

Secularização Laicismo Revolução Francesa Igreja Católica na França

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