Os abuceus (; ), abedalcaicitas ou Banu Abede Alcaice () foram uma antiga tribo árabe do ramo dos rebiaítas das tribos do norte da Arábia (adenanitas). Segundo a tradição genealógica árabe, descendiam de Adenane e compartilhavam ascendência comum com o profeta Maomé. Seus membros eram conhecidos pelos gentílicos Abedi, Caici, Abecaici e Abecaci. Originalmente estabelecidos na Tiama, migraram posteriormente para a Arábia Oriental, onde ocuparam as regiões costeiras e interiores de Barém, Alhaça e Omã, vivendo tanto em comunidades sedentárias nos oásis quanto em grupos nômades. Durante esse processo passaram a conviver com persas, judeus, cristãos e outras tribos árabes, além de realizarem frequentes incursões contra a Pérsia.

Quando atingiu a maioridade, o xá promoveu uma grande campanha contra os abuceus, devastando extensas áreas da Arábia Oriental e da Síria, matando numerosos membros da tribo e deportando muitos outros para a província da Carmânia. Nos séculos seguintes, permaneceram sob domínio sassânida e, às vésperas do surgimento do islã, parte da tribo professava o cristianismo, enquanto outra continuava praticando cultos politeístas, entre os quais se destacava a veneração ao ídolo em Almuxacar.

Os abuceus estiveram entre as primeiras tribos da Arábia Oriental a estabelecer relações com Maomé, enviando uma delegação a Medina em 629 e adotando oficialmente o islã. Após a morte do profeta, permaneceram em sua maioria fiéis ao novo credo durante as Guerras da Apostasia, participaram ativamente das conquistas muçulmanas e migraram em grande número para regiões como Tavaz, Baçorá, Cufa, Moçul, Ispaã, Merve e o Coração, onde cerca de quatro mil de seus guerreiros acompanharam Cutaiba ibne Muslim em suas campanhas no início do . Em geral apoiaram Ali ibne Abi Talibe durante a Primeira Fitna, combatendo a seu lado nas batalhas do Camelo e de Sifim. Um dos ramos da tribo eram os murraítas, dos quais descendeu a , que governou Alhaça entre os séculos XI e XIII.

Genealogia

Segundo a tradição genealógica árabe, os abuceus integravam um conjunto de tribos originalmente estabelecidas na região correspondente à moderna província de Alaride. Em época posterior, esse conjunto passou a ser identificado pelos genealogistas como pertencente ao ramo dos rebiaítas. No esquema genealógico apresentado por Kindermann, os abuceus, por meio de seu ancestral epônimo Abede Alcaice, faziam remontar sua descendência a Jadila, filho de Açade ibne Rebia. Rebia, por conseguinte, descendia de Nizar ibne Maade ibne Adenane. De Jadila descendiam, em linha direta, Dumi, Afexa, Himbe e Cácite. Cácite foi pai de Anamir, epônimo dos anamiritas, e Uail, pai de Becre, epônimo dos becritas, e Taglibe, epônimo dos taglibitas.

História

Já no , parte dessas tribos iniciou um processo de nomadização, deslocando-se tanto para o interior quanto para além do arco do . Os abuceus integraram esse movimento e, durante o , estabeleceram-se nos dois principais distritos de oásis da Arábia Oriental: o interior de Barém — posteriormente conhecido como Alhaça — e a região costeira de Catife. O principal núcleo de ocupação da tribo situava-se no grande oásis de Barém, região irrigada por numerosas nascentes, poços e canais naturais e artificiais. Seu centro político era Hajar, onde se erguia a fortaleza de Almuxacar, enquanto outras localidades fortificadas incluíam . Na faixa costeira, cuja capital era , próxima de Catife, conviviam árabes, persas, indianos, judeus e mandeus, refletindo o caráter cosmopolita da região sob influência do comércio do Golfo Pérsico. A tribo dividia-se em dois grandes ramos, os xanitas (Xane) e lucaizitas (Lucaiz). Este último compreendia as tribos dos nucraítas (Nucra), dilitas (Dil), ijeítas (Ije) e moaribitas (Moaribe ibne Anre). Os três últimos grupos eram conhecidos coletivamente como Alumur para distingui-los dos anemaritas, compostos pelos ramos amirita (Amir ibne Alharite) e jadimaíta (Jadima ibne Aufe). Entre estes destacavam-se diversos subclãs, incluindo os murraítas e os malequitas, pertencentes ao ramo amirita. A distribuição dos diferentes ramos acompanhava a ocupação dos oásis. Os moaribitas habitavam principalmente as aldeias do interior de Barém, enquanto os jadimitas concentravam-se em Catife e os nucritas em Zara. Durante o verão, os grupos do norte da tribo reuniam seus rebanhos nas proximidades de , ao passo que os nucritas utilizavam as pastagens entre Zara e a região de . Desde época antiga, o crescimento populacional favoreceu a emigração de diferentes segmentos da tribo tanto para Omã quanto para a costa persa do golfo.

A chegada dos abuceus à Arábia Oriental ocorreu quando ainda subsistiam na região remanescentes da tribo dos iaditas, que então migrava em direção ao Iraque. Ao norte estabeleceram contato com os Caice ibne Salaba, ramo dos becritas que ocupava a faixa compreendida entre , e . Seus principais adversários eram os saditas, um ramo dos tamimitas que percorria as áreas situadas em ambos os lados do deserto de Dana, estendendo-se até os uádis Faruque e Assaba. Quando atingiu a maioridade, o xá dedicou-se a puni-los. Liderou um exército no Golfo Pérsico e devastou grandes partes da Arábia Oriental e Síria, massacrando a maioria deles e deportando vários para a província da Carmânia. A partir desse ponto, os oásis costeiros permaneceram sob domínio direto do Império Sassânida. O interior de Barém integrou, no início do , o Reino de Quinda, sendo posteriormente governado por um ramo secundário dessa dinastia sediado em Hajar. Após a extinção desse governo, por volta de 530, a região passou ao controle dos lácmidas de Hira, provavelmente com o consentimento das autoridades persas. Durante o reinado de , sucessivas expedições de saque enfraqueceram a resistência dos ramos xanitas e lucaizitas. Com a queda do Reino Lácmida, a administração de Barém voltou diretamente às mãos dos sassânidas. Um aspabedes persa estabelecido em Almuxacar governava a região com o auxílio de um representante árabe local. A convivência prolongada entre árabes, persas, judeus e cristãos marcou profundamente a vida dos oásis. Os abuceus encontravam-se então sob soberania sassânida; parte da tribo havia adotado o cristianismo, enquanto outra preservava antigos cultos árabes, entre eles a veneração ao ídolo em Almuxacar. Segundo Caskel, a receptividade demonstrada tanto pelos governadores persas quanto pelos próprios abuceus às cartas e aos emissários enviados por Maomé pode ser explicada pela crise sucessória que atingiu o Império Sassânida após 628. A instabilidade política enfraqueceu o apoio que os administradores provinciais recebiam da corte persa e favoreceu sua aproximação com a comunidade muçulmana emergente na Arábia.

As tradições relativas aos primeiros contatos entre os abuceus e Maomé apresentam algumas divergências. Segundo uma tradição considerada fidedigna, integrantes da tribo encontraram o profeta pela primeira vez durante a Batalha de Uude, quando chegaram a Medina acompanhando uma caravana. Outros membros converteram-se durante a campanha contra os mustaliquitas. Em resposta à carta enviada por Maomé convidando-os ao islã, uma delegação de vinte representantes da tribo dirigiu-se a Medina em 629, chefiada por . Hospedados na casa de , permaneceram cerca de dez dias na cidade, período em que aprenderam os fundamentos do islã e do Alcorão. Maomé, que conhecia a região por ter frequentado anteriormente as feiras de Almuxacar e , dispensou especial atenção aos visitantes. Dirigindo-se ao chefe da delegação, conhecido pelo epíteto Alaxaje em razão de uma cicatriz na testa, afirmou que nele se reuniam duas qualidades amadas por Deus: a mansidão e a modéstia. Também incentivou seus companheiros a presentearem os membros da delegação e determinou que os abuceus observassem a oração, o pagamento do zacate, o jejum do Ramadã e a entrega de um quinto dos despojos de guerra ao erário público, proibindo ainda o uso de determinados recipientes tradicionalmente empregados para a fermentação de bebidas alcoólicas. A tradição preserva ainda que a mesquita de Jauata, situada em território dos abuceus, foi a primeira fora de Medina autorizada por Maomé a realizar regularmente a oração comunitária de sexta-feira. Também sobreviveram diversas cartas enviadas pelo profeta à tribo tratando de questões tributárias e administrativas.

Após a morte de Maomé, os abuceus permaneceram majoritariamente fiéis ao islã durante as Guerras da Apostasia. Sob a liderança de , pertencente ao ramo dos amiritas-jadimaítas, combateram os grupos que haviam abandonado a nova religião. Parte da tribo, contudo, acompanhou o chefe dos caicitas ibne Salaba no reconhecimento de um príncipe lácmida como governante. Os muçulmanos leais refugiaram-se em Jauata, onde resistiram a um cerco até a chegada de reforços provenientes da campanha vitoriosa contra Muçailima. Em 633 retomaram a ofensiva e, no ano seguinte, forçaram a rendição da guarnição persa estabelecida em Zara, consolidando o domínio muçulmano sobre Barém. As fontes também atribuem aos abuceus papel decisivo na derrota do rebelde em Diba, bem como na repressão das revoltas em Mara e no Iêmem. As conquistas islâmicas inauguraram uma nova fase de migrações da tribo. Antigos grupos dos abuceus participaram de uma expedição naval contra Pérsis e estabeleceram-se principalmente em Tavaz, perto de Dalaqui. Outros contingentes fixaram-se em Baçorá, onde a presença tribal tornou-se expressiva, enquanto uma parcela menor migrou para Cufa. Acompanhando os exércitos muçulmanos, alcançaram ainda Moçul, Ispaã, Merve e o Coração, onde, segundo Caskel, cerca de quatro mil de seus guerreiros integravam as forças comandadas por Cutaiba ibne Muslim em 715. Embora não tenham desempenhado papel predominante na política das províncias conquistadas, adaptaram-se às realidades locais e participaram das rivalidades tribais que marcaram Baçorá e o Coração.

Os abuceus permaneceram, em sua maioria, partidários de Ali ibne Abi Talibe durante a Primeira Fitna. Combatendo ao seu lado nas batalhas do Camelo e de Sifim, conservaram posteriormente uma tradição de simpatia pelos álidas, sobretudo em Cufa. Entre seus membros mais destacados figuraram , célebre por sua oposição a , e , que liderou uma revolta dos habitantes de Cufa e Baçorá contra Alhajaje ibne Iúçufe, sendo posteriormente executado por ordem do governador. Também pertenceu à tribo , um dos primeiros ascetas do islã e precursor de Haçane Albáceri. Na Arábia Oriental, os abuceus tentaram conter, sem sucesso, a expansão do movimento carijita liderado por na Iamama, entre 686 e 687. A partir desse período, a distribuição territorial da tribo sofreu profundas alterações. Apenas os ramos dos jadimaítas e dos moaribitas permaneceram em seus antigos territórios, estes últimos estendendo sua ocupação ao porto de . Os descendentes de Amir ibne Alharite conservaram Zara e uma das ilhas de Barém, provavelmente Sitra, enquanto grande parte das antigas possessões tribais foi progressivamente ocupada pelos tamimitas, que fundaram a povoação de Alhaça. Ao mesmo tempo, grupos dos azeditas provenientes de Omã estabeleceram-se na costa e compartilharam com os abuceus alguns oásis do interior, entre eles .