A ordenação de mulheres na Comunhão Anglicana é uma tendência que tem ocorrido desde a década de 1970, intensificando-se após a virada do século. Atualmente, a maioria das províncias da Comunhão Anglicana ordenam mulheres para uma das três ordens tradicionais, consagrando episcopisas, reverendas e/ou diaconisas. Outras províncias ordenam mulheres como diaconisas e reverendas, mas não como episcopisas; outras, ainda, apenas como diaconisas; e sete províncias não ordenam mulheres a qualquer uma dessas ordens do ministério. Dentro de algumas províncias que permitem a ordenação de mulheres, a aprovação da legislação canônica permitindo tal prática é de responsabilidade das dioceses. Assim sendo, pode haver dioceses dentro de uma mesma província com posições conflitantes em relação à ordenação de mulheres. Um exemplo disso é a Igreja australiana, onde as dioceses possuem um considerável grau de autonomia. Embora atenda a uma demanda do início do século XX e que faz parte de uma luta que vem do seio da sociedade, a ordenação de mulheres tem contribuído para o estabelecimento e o crescimento de tendências separatistas conservadoras, como os movimentos de Realinhamento Anglicano e de Continuação Anglicana.

Visão geral A situação atual da ordenação de mulheres na Comunhão Anglicana pode ser vista na tabela a seguir, que lista as Igrejas-membro e as Igrejas extra-provinciais da Comunhão: Província Ordenação de diaconisas permitida Primeira diaconisa ordenada Ordenação de reverendas permitida Primeira reverenda ordenada Consagração de episcopisas permitida Primeira episcopisa consagrada Refs África Austral Em 1982 Em 1992 Em 1996 Em 2012 África Ocidental Em 1987 Em 1987 Em 2000 África Central América Central América do Sul Aotearoa, Nova Zelândia e Polinésia Em 1976 Em 1977 Em 1990 Austrália Em 1985 Em 1986 Em 1992 Em 1992 Em 2007 2008 Bangladesh Bermuda (extra-provincial) Em 2009 Brasil Em 1983 Em 1984 Em 1983 Em 1985 Em 1983 Em 2018 Burundi Canadá Em 1969 Em 1969 Em 1975 Em 1976 Em 1986 Em 1994 Ceilão (Sri Lanka; extra-provincial) Em 2003 Em 2006 Congo Coreia Em 2005 Em 2008 Cuba (extra-provincial) Em 1986 Em 1990 Em 2007 Escócia 1986 1986 1994 1994 2003 2018 Espanha (extra-provincial) Estados Unidos Em 1970 Em 1976 Em 1974}} Em 1976 Em 1989 Filipinas Gales Em 1980 Em 1980 Em 1996 Em 1997 Em 2013 Em 2017 Hong Kong Em 1971 Em 1944 Ilhas Falkland (extra-provincial) Índias Ocidentais Em 1992 Em 1994 Em 1995 Em 1996 Índico Em 2002 Em 2006 Em 2006 Inglaterra Em 1985 Em 1987 Em 1992 Em 1994 Em 2014 Em 2015 https://www.churchofengland.org/media/1121182/a8(we)background.pdf p. 1https://www.churchofengland.org/media/38523/gs1557.pdf Irlanda Em 1984 Em 1987 Em 1990 Em 1990 Em 1990 Em 2013 Japão Em 1998 Em 1998 Jerusalém e Oriente Médio Em 2011 Em 2011 Melanésia México Myanmar (Burma) Moçambique e Angola Em 2023 Nigéria Norte da Índia Em 1984 Paquistão Em 2000 Papua Nova Guiné Portugal (extra-provincial) Em 1997 Quênia Em 1983 Em 1990 Em 1992 Ruanda Em 1996 Sudão Em 2000 Em 2000 Em 2000 Em 2016 Sudão do Sul Em 2000 Em 2000 Em 2000 Em 2016 Sudeste asiático Sul da Índia Em 2013 Tanzânia Uganda 1983

Histórico Ordenação de reverendas Em 1930 surgiu o Grupo Anglicano pela Ordenação de Mulheres no Ministério Histórico, que lutava pela ordenação de mulheres dentro da Igreja da Inglaterra e das demais igrejas-membro da Comunhão Anglicana. O movimento era liderado pelo Bispo de Lichfield, John Kempthorne, e pelo deão da Catedral de Cantuária, Dick Sheppard. O grupo suspendeu suas atividades durante a Segunda Guerra Mundial. Em 25 de janeiro de 1944, no entanto, Florence Li Tim-Oi foi ordenada reverenda na igreja de Hong Kong por Ronald Hall, bispo de Victoria, devido à falta de homens – que estavam lutando contra a ocupação japonesa – naquela província. Ela foi a primeira mulher ordenada como reverenda na Comunhão Anglicana, mas sucumbiu às pressões conservadoras e renunciou ao cargo (mas não ao título) após o fim da guerra. Em 1971, a igreja de Hong Kong e Macau se tornou a primeira da província anglicana a permitir a ordenação de mulheres ao sacerdócio. Assim sendo, Florence Li Tim-Oi pôde finalmente atuar como reverenda. Jane Hwang e Joyce M. Bennett também foram ordenadas reverendas por Gilbert Baker, bispo de Hong Kong and Macao em 28 de novembro de 1971."When Hong Kong ordained two further women priests in 1971 (Joyce Bennett and Jane Hwang), Florence Li Tim-Oi was officially recognised as a priest by the diocese" http://anorderlyaccount.com/index.php/static2/the_ac_tec_and_acna

Três anos depois, nos Estados Unidos, onze mulheres – conhecidas como "as onze de Filadélfia" – foram ordenadas ao sacerdócio na cidade de Filadélfia por três bispos aposentados (Daniel Corrigan, Robert L. DeWitt e Edward R. Welles). Quatro outras mulheres ("as quatro de Washington") foram ordenadas em 1975 na capital federal por George W. Barrett, bispo aposentado de Rochester, Nova Iorque. Todas estas ordenações foram definidas como "irregulares" pela Igreja Episcopal dos Estados Unidos porque foram feitas sem a autorização da Convenção Geral. As ordenações foram regularizadas em 1976, apos a Convenção Geral aprovar medidas autorizando a ordenação de mulheres ao sacerdócio e ao episcopado. A primeira ordenação regular ocorreu em 1° de janeiro de 1977, quando Jacqueline Means foi ordenada reverenda na Igreja de Todos os Santos em Indianápolis."Woman Episcopal Priest Celebrates Communion", New York Times, 3 January 1977. Em 1975, o Sínodo Geral da Igreja Anglicana do Canadá aprovou uma lei canônica permitindo a ordenação de reverendas; as seis primeiras do país foram ordenadas em 30 de novembro de 1976. Em 1977, foi a vez da Igreja Anglicana da Nova Zelândia ordenar suas primeiras reverendas; cinco no total.

Em 1985, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, seguindo deliberação do Sínodo Geral realizado no ano anterior, começou a ordenar mulheres, sendo a primeira delas a reverenda Carmen Etel Alves Gomes. Ainda nos anos 1980, a Igreja Anglicana do Quênia concordou com o princípio de que as mulheres poderiam ser ordenadas, liberando cada diocese para deliberar sobre o assunto. Em 1983, Henry Okullu, bispo da diocese de Maseno Sul ordenou Lucia Okuthe como a primeira reverenda do Quênia. No mesmo ano, William Rukirande, bispo de Kigezi, ordenou três mulheres – Monica Sebidega, Deborah Micungwa Rukara e Margaret Kizanye Byekwaso – como reverendas na Igreja de Uganda. A legislação canônica sobre a ordenação de mulheres foi aprovada em ambos os países em 1990. Naquele mesmo ano, Janet Catterall se tornou a primeira reverenda ordenada na Igreja da Irlanda.

Em 1992, o Sínodo Geral da Igreja Anglicana da Austrália aprovou uma lei canônica dando às dioceses o poder de deliberar sobre a questão da ordenação feminina naquele país. Em seguida, 90 reverendas foram ordenadas na Austrália. Ainda naquele ano, a Igreja Anglicana da África Austral autorizou a ordenação feminina e, em setembro, Nancy Charton, Bride Dickson e Sue Groves foram ordenadas reverendas na diocese de Grahamstown. Ainda em 1992, o Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra aprovou uma moção para ordenar mulheres. No entanto, a medida gerou controvérsia e uma lei aprovada pelo Parlamento britânico no ano seguinte, o Act of Synod, permitiu que as paróquias não aceitassem ser lideradas por reverendas. Em 1994 as duas primeiras reverendas da Inglaterra foram ordenadas. Suas experiências serviram de base para o seriado A Vigária de Dibley. A legalidade da ordenação de mulheres na Inglaterra foi questionada em cortes civis pelo reverendo Paul Williamson. Até 2004, no entanto, a prática já havia se tornado recorrente e 25% dos reverendos ingleses eram mulheres.

Em 25 de julho de 1994, na diocese de Barbados, Sonia Hinds e Beverley Sealy se tornaram as primeiras mulheres a serem ordenadas diáconas na Igreja das Índias Ocidentais. Em maio de 1996, ambas as mulheres foram ordenadas reverendas. Rufus Brome, o primeiro bispo nascido em Barbados, presidiu ambas as cerimônias de ordenação na Catedral de São Miguel e Todos os Anjos em Bridgetown. Em 9 de fevereiro de 1997, Rosalina Villaruel Rabaria se tornou a primeira reverenda da Igreja Independente das Filipinas, na diocese de Aklan e Capiz. Em 2015, a diocese da Bolívia se tornou a primeira da Igreja Anglicana do Cone Sul a ordenar mulheres. Em seguida, no mesmo ano, Susana Lopez Lerena, Cynthia Myers Dickin e Audrey Taylor Gonzalez se tornaram as primeiras reverendas anglicanas da diocese do Uruguai, da mesma igreja.

Ordenação de episcopisas

A primeira episcopisa anglicana do mundo foi Barbara Harris, ordenada episcopisa sufragânea na diocese de Massachusetts, nos Estados Unidos, em fevereiro de 1989. Desde então, mais de 20 mulheres foram eleitas episcopisas naquele país. Dentre elas está Mary Glasspool, eleita em dezembro de 2009 e consagrada em maio de 2010 como a primeira episcopisa lésbica da Comunhão Anglicana. Ao assumir seu posto de episcopisa sufragânea na diocese de Los Angeles, Glasspool atraiu a ira de grupos conservadores que se opõem à presença de homossexuais na religião.Episcopal Life Online, 15 May 2010. A Igreja Episcopal dos Estados Unidos também foi a primeira da Comunhão Anglicana a ser presidida por uma mulher quando Katharine Jefferts Schori foi eleita a 26a episcopisa-presidente e primaz dos Estados Unidos na Convenção-Geral de 2006 para um mandato de nove anos.

A primeira episcopisa diocesana da Comunhão Anglicana foi Penny Jamieson, da Igreja de Aotearoa, Nova Zelândia e Polinésia, eleita episcopisa de Dunedin em 1989. Ela se aposentou em 2004. Ela foi seguida por Victoria Matthews, da Igreja Anglicana do Canadá, eleita episcopisa de Edmonton em 1997, posto que manteve até sua aposentadoria em 2007, quando foi eleita episcopisa de Christchurch na Nova Zelândia. Matthews foi a primeira episcopisa canadense, tendo sido eleita episcopisa sufragânea na diocese de Toronto em 19 de novembro de 1993 e ordenada ao episcopado em 12 de fevereiro de 1994. Até 2015, outras oito mulheres foram eleitas na Igreja Anglicana do Canadá.

Em 2013, Helen-Ann Hartley se tornou a primeira mulher ordenada na Igreja da Inglaterra  a se tornar episcopisa quando foi eleita episcopisa de Waikato e episcopisa diocesana conjunta na Diocese de Waikato e Taranaki. Desde 2017, a Reverenda Dra. Eleanor Sanderson serviu como episcopisa assistente de Wellington. Wai Quayle tornou-se a primeira mulher indígena a ser eleita episcopisa na Igreja Anglicana em Aotearoa, Nova Zelândia e Polinésia em 2019.

Após um longo debate a Igreja Anglicana da Austrália decidiu em 28 de setembro de 2007 que mulheres poderiam ser consagradas episcopisas. As primeiras mulheres ordenadas como episcopisas foram Kay Goldsworthy (episcopisa-assistente de Perth) em 22 de maio de 2008 e Barbara Darling (episcopisa-assistente de Melbourne) em 31 de maio de 2008. Mais tarde, Goldsworthy foi eleita episcopisa de Gippsland em 2015. Desde então, outras quatro mulheres foram ordenadas episcopisas na Igreja Anglicana da Austrália, sendo Sarah Macneil – eleita episcopisa de Grafton em 2014 – a primeira diocesana. Em agosto de 2017, Goldsworthy foi eleita arquiepiscopisa de Perth e, ao assumir o cargo em 10 de fevereiro de 2018, tornou-se a primeira arquiepiscopisa da história do anglicanismo.ABC Online