Melgaço é uma vila raiana portuguesa do Distrito de Viana do Castelo pertencendo à sub-região do Alto Minho e à região do Norte, sendo sede do Município de Melgaço que tem uma área urbana de 11,51 km2Instituto Geográfico Português, Carta Administrativa Oficial de Portugal (CAOP), versão 2013 (ficheiro Excel zipado), num total de 238,25 km2, e 7.773 habitantes em 2021, tendo, por isso, uma densidade populacional de 32 habitantes por km2, estando subdividido em 13 freguesiasDiário da República, Reorganização administrativa do território das freguesias, Lei n.º 11-A/2013, de 28 de janeiro, Anexo I.. O município é limitado a norte e leste pela comunidade autónoma espanhola da Galiza, a sul pelo município de Arcos de Valdevez e a oeste por Monção. É o município mais setentrional do país.

O município é reconhecido pelas pontes romanas e medievais, monumentos e alinhamentos megalíticos, antigas fortificações, como o Castelo de Melgaço e o Castelo de Castro Laboreiro, vários solares, igrejas românicas, o parque termal, museus e os trilhos pedestres, para além da fauna e flora natural do município, salvaguardada pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Geografia Composto por uma densa rede hidrográfica, sendo o seu terrritório delimitado ou atravessado pelos rios Minho, Mouro, Trancoso e Laboreiro assim como pelos municípios galegos de Entrimo, Verea, Quintela de Leirado, Padrenda, Crescente e Arbo e portugueses de Arcos de Valdevez e Monção, as suas 13 freguesias distribuem-se por zonas de planalto, montanha, serra, vale, planície e encostas. A sua geografia é composta por um anfiteatro de altitudes gradualmente crescentes a partir da orla ribeirinha até ao Cabeço do Pito e ao Planalto de Castro Laboreiro, na zona leste, e aos cumes de Chãs da Lama, Alto do Corisco, Alto do Fojo, Coto do Corno, Cão Pendurado e Chão da Roca, que pontificam na zona sul.

O ponto mais elevado do município situa-se no Giestoso, também referido pelos locais como "O Talefre", sendo a 4ª montanha mais elevada do distrito de Viana do Castelo e a 29ª mais alta de Portugal Continental, com 1335 metros de altitude, na união de freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro. Outro ponto de elevação nas proximidades do Planalto de Castro Laboreiro é a zona da Pena de Numão (ou Anamão), onde se situa a antiga Ermida da Senhora de Numão.

História

Pré-história e idade dos metais miniaturadaimagem|318x318px|Ruínas Megalíticas de Cousso Com a existência de pinturas rupestres, no Fieiral, uma das maiores necrópoles pré-históricas da Península Ibérica, no planalto de Castro Laboreiro, e vários monumentos megalíticos, nomeadamente em Parada do Monte, Cousso e Gave, os primeiros povoamentos humanos na localidade de Melgaço remontam essencialmente ao Neolítico e, em outras zonas do município, à Idade do Cobre e à Idade do Bronze, onde ainda persistem vestígios de mais de oitenta edificações ancestrais, como mamoas, dólmens, antas e alinhamentos megalíticos. miniaturadaimagem|424x424px|Necrópole Megalítica do Planalto de Castro Laboreiro Durante a Idade do Ferro, a localidade era composta por diversos povoamentos gróvios e galaicos de origem celta, preservando-se até aos dias de hoje vários exemplares da cultura castreja para além dos traços linguísticos, folclore, música, costumes e tradições, como a prática da transumância, marcada pelas brandas e inverneiras na localidade. Atualmente em paradeiro desconhecido, o "Ídolo de Paderne", uma pequena escultura zoomorfa, oferecida ao arqueólogo e etnógrafo José Leite de Vasconcelos durante as suas expedições pela região melgacense, foi apenas um dos muitos artefatos de cultura pré-histórica que foi encontrado nas ruínas das antigas cividades do município.miniaturadaimagem|318x318px|Ponte da Cavada Velha, Castro Laboreiro Domínio romano Com a expansão do Império Romano e a conquista da Península Ibérica, após várias batalhas travadas e com o cessar da resistência pelas tribos nativas, durante os reinados dos imperadores Augusto (63 a.C.-14 d.C) e Júlio César (100 a.C.-44 a.C.), entre 26 a.C. e 19 a.C., a região de Melgaço, então denominada Melgaci, ficou sob o domínio dos romanos, integrando a região da Galécia e a província de Hispania Citerior Tarraconensis. Confundindo-se a história com as lendas locais, apesar de ainda controverso, segundo vários historiadores, como José Leite de Vasconcelos ou José Hermano Saraiva, era relatado que à época, na região, existia um clã, que se fixou no planalto onde se situa o centro histórico da Vila, liderado por um celta romanizado de nome Melgacus ou ainda Melgaecus, originando assim a razão toponímica deste município minhoto.

Desse período, preservaram-se partes da via romana entre Valença e Melgaço, inúmeras pontes, como a Ponte da Cavada Velha, Peso, Dorna e Lamas de Mouro, sepulturas, fortificações militares, que originaram as fundações do Castelo de Melgaço e do Castelo de Castro Laboreiro, a cultura da vinha e a produção do vinho, a extração de minérios e, mais recentemente descobertos por um coletivo científico que investiga a presença militar romana no Noroeste da Península Ibérica, vestígios de um dos maiores acampamentos militares romanos de carácter temporário, com mais de 20 hectares e com capacidade para albergar um contingente com mais de 10 mil soldados, na Lomba do Mouro, em Castro Laboreiro.

Invasões bárbaras Após a queda do Império Romano do Ocidente, com as invasões bárbaras, os suevos migraram para a região minhota, estabelecendo um dos primeiros reinos a separar-se do Império Romano, o Reino Suevo, sendo posteriormente, em 585, o território anexado pelos visigodos na sexta província do Reino Visigótico. Apesar de muitos dos vestígios deste período terem sido destruídos, quer pelo tempo quer por outros conflitos posteriores, a construção das primeiras igrejas cristãs na região, nomeadamente da extinta ermida dedicada aos mártires São Facundo e São Primitivo, e a tradição dos fornos comunitários de Pontes, em Castro Laboreiro, remontam a esse período. Ocupação muçulmana miniaturadaimagem|318x318px|Peças de cerâmica expostas na Torre de Menagem do Castelo de Melgaço Com a invasão muçulmana na Península Ibérica, a partir de 711, o território tornou-se parte da fronteira contestada entre Cristãos e Muçulmanos, tendo sido incorporada permanentemente sobre domínio cristão no início do século IX, após várias batalhas travadas durante a Reconquista Cristã, liderada por Pelágio (685-737) do Reino das Astúrias. Uma das batalhas mais conhecidas da região realizou-se no ano de 812, no lugar de Vale de Mouro, junto ao Rio Ornese, em Lamas de Mouro, onde, segundo a lenda, D. Bernardo del Carpio lutou contra as forças de Ali-Aton, rei de Córdova, que caiu derrotado.miniaturadaimagem|318x318px|Castelo de Castro Laboreiro

Incursões vikings Ainda durante o século IX e X, a população raiana não viveu tempos de paz, sendo também vítima de ataques, saques e raptos realizados por várias embarcações vikings que incursaram por várias ocasiões pelo Rio Minho, deixando como prova disso vários exemplares de esculturas de dragões e outras figuras, pertencentes à mitologia nórdica, nos locais onde atracavam e construíam os seus portos ou acampamentos provisórios, nomeadamente nas margens do Rio Minho, em Monte Prado. Condado Portucalense miniaturadaimagem|318x318px|Tímpano medieval da Igreja Matriz de Melgaço Com a presúria de Vímara Peres (820-873), em 868, sucedeu-se um intenso trabalho de repovoação entre a região do Minho e do Douro, auxiliado por cavaleiros cristãos de diversas nacionalidades, que receberam vários títulos e o encargo de senhores de diversas terras em troca de as protegerem caso os muçulmanos voltassem a atacar, como o conde Hermenegildo Guterres (842-912), também referido como Mendo Guterres, avô de São Rosendo, que erigiu sob um castro antigo o Castelo de Castro Laboreiro, ou o cavaleiro Soeiro Aires (1140-1179), que recebeu o domínio de Alvaredo e Valadares. Sob um novo regime feudal, Melgaço tornou-se então parte integrante do Condado Portucalense, sendo um dos principais pontos de acesso do Reino da Galiza para o condado e um importante marco na rota de mercadorias e mantimentos para a linha da frente das forças militares cristãs. Posteriormente, entre 1144 e 1145, os mouros ocuparam o Castelo de Castro Laboreiro, sendo reconquistado um ano depois pelas tropas lideradas por D. Afonso Henriques (1109-1185).

Reino de Portugal miniaturadaimagem|318x318px|Detalhes na Igreja de São João Baptista em Lamas de MouroDurante a guerra da independência que gerou o Reino de Portugal, Melgaço e Castro Laboreiro tomaram partido de D. Afonso Henriques contra o Reino de Leão, tomando o Castelo de Castro Laboreiro com a ajuda dos populares e das freiras beneditas de Paderne, a quem lhes foi concedido couto próprio. Anos depois, o Castelo de Melgaço começou a ser construído em 1170, por ordem da coroa portuguesa e com o apoio dos mosteiros de Longos Vales e de Fiães. Recebendo o seu primeiro foral em 1183, o qual garantia aos seus habitantes privilégios semelhantes aos que gozava o feudo galego de Ribadavia, a localidade tornou-se então no ponto mais setentrional do país, passando a integrar a linha fronteiriça dos domínios de Portugal.miniaturadaimagem|318x318px|Castelo de MelgaçoProgredindo desde então, a alcaidaria de Melgaço e de Lapela, em Monção, recaiu sobre a alçada do cavaleiro e morgado Lourenço Gonçalves de Abreu (1100-1141), permanecendo na família Gomes de Abreu durante a primeira dinastia portuguesa, sendo ainda atribuído o cargo do primeiro juiz ordinário da localidade a Iohannes Bezerrus no reinado de D. Afonso Henriques. Com a forte influência das ordens religiosas na região, nomeadamente da Ordem de Cister, São Bento e de Santo Agostinho, nesse mesmo ínterim, fundaram-se inúmeras igrejas, conventos, mosteiros e ermidas de estilo românico.miniaturadaimagem|318x318px|Mosteiro e Igreja de Fiães