A língua bretã ( ou em Morbihan) é uma língua britônica falada na zona ocidental da Bretanha (conhecida como Baixa Bretanha; em bretão, Breizh Izel), na França.
O idioma é da família indo-europeia, e faz parte do ramo britônico das línguas célticas que foram levadas da Grã-Bretanha pelas migrações bretãs para a Armórica, no início do Medievo. Está estreitamente relacionada com outras línguas britônicas, sobretudo com o córnico e o galês, e um pouco mais distante do gaélico irlandês e do gaélico escocês, sendo classificada como uma língua céltica insular.
O bretão é a única língua celta sem estatuto oficialmente reconhecido. O número de falantes diminuiu dos mais de um milhão de falantes, nos anos 1950, para os cerca de 200.000 da atualidade, sendo que a maioria desses locutores tem mais de 60 anos de idade.Fañch Broudic, 2009. Parler breton au XXIe siècle – Le nouveau sondage de TMO-Régions. Em 2007 havia 172.000 falantes na Baixa Bretanha e, em toda a Bretanha, pouco menos de 200.000. O número chegava 206.000, quando incluídos os estudantes de escolas bilíngues. O declínio nos usuários do idioma é resultado de um longo processo de tentativas de políticos franceses de proibir sua utilização cotidiana na região e a extinção do seu ensino em escolas. Além disso, o único idioma oficial reconhecido na França é a Língua francesa, reduzindo as aparições do Bretão em documentos oficais. Estes fatos tornaram o bretão uma língua ameaçada de extinção, de acordo com o Livro Vermelho das Línguas Ameaçadas da UNESCO.
Quanto aos dialetos, o bretão é dividido em 4 principais: Leonég, falado em Léon; Tregerieg, comum na região de Tregor; Kerneveg, da Cornualha; e Gwenedeg, falado em Vannes.
Etimologia
O termo Brezhoneg deriva da palavra brezhong (AFI: [breː.zɔ̃n]), que, em formas mais modernas do idioma, é o gentílico atribuído àqueles nascidos na Bretanha e, em traduções mais arcaicas, "britânico". O sufixo "-eg" é uma partícula usada no idioma bretão após um gentílico para se referir à idiomas e dialetos. Assim, Brezhoneg é a "língua dos bretões".
Já "bretão", nome em português do idioma, deriva de "Bretanha", região no qual é falado. Este nome deriva do grego Prettaniké ou Brettaníai, utilizado pelo explorador grego Píteas para designar as Ilhas Britânicas.O termo foi traduzido para o latim como Britannia, utilizado para denominar a província da Britanha após a conquista da região pelo Império Romano.
Distribuição O bretão é falado, em especial, na Baixa Bretanha (oeste da Bretanha), região noroeste da França, mas também encontra alguma expressividade na região da Alta Bretanha. A utilização da língua está em rápido declínio: em 2024, estimou-se 107 mil falantes, que correspondem a 2,7% dos habitantes da região, e à metade dos aproximados 214 mil em 2018.
Dialetos esquerda|miniaturadaimagem|Em cores, os dialetos do Bretão, divididos na região da Baixa Bretanha. Em cinza, a Alta Bretanha, onde se fala a Língua galo. O bretão se ramifica, atualmente, em 4 dialetos, correspondentes aos 4 bispados medievais da Baixa Bretanha. A seguir, estão listados os nomes bretões de cada variação do idioma, seguidos respectivamente pelo nome em francês e por seu bispado de origem:
Leoneg (Léonard, Léon) Tregerieg (Trégorrois, Trégor) Kerneveg (Cournuallais, Cornualha) Gwenedeg (Vannetais, Vannes) Além destes, há ainda o Gwerraneg, Falado em Batz-sur-Mer. Esse dialeto é considerado extinto desde a morte de seus últimos falantes nos anos 1960. Assim é composto o Continuum dialetal do bretão, visto que são poucas as diferenças entres os dialetos. No entanto, o Gwenedeg é alvo de discussões quanto à sua classificação como dialeto, já que apresenta as maiores variações, como a posição da sílaba tônica (última no Gwenedeg, penúltima nos demais), e requer mais estudos para ser compreendido em relação às suas contrapartes de outras regiões.
Línguas relacionadas
O bretão, assim como demais línguas britônicas, descende do protocelta. Desta protolíngua, descendem os ramos celta nuclear, dividido nos sub-ramos celta insular (do qual descende a linhagem britônica, cujo um dos idiomas é o bretão, e a linhagem goidélica), cisalpino e gálata; ramo celtibérico, que deu origem ao galaico e ao lusitano; e o ramo venético, que deu origem à língua venética.
História thumb|150px|Áreas com culturas de origem britônica no século VI. O mar era o meio de comunicação entre as diferentes comunidades.
A origem do bretão Entre os séculos IV e VII d.C., os britânicos se movimentaram de sua terra de origem à Bretanha, trazendo consigo sua língua. A área conhecida pelos romanos como Armórica foi renomeada "Pequena Bretanha", por serem os seus habitantes oriundos da Grã-Bretanha, especialmente na Cornualha. Acredita-se se que, no período da chegada dos migrantes à região, esta já era habitada por certos grupos de Gauleses, povos celtas que viviam na Gália, no sudeste da Bretanha. Atribui-se à isso as já citadas discrepâncias entre o Gwenedeg, falado no sudeste, e os demais dialetos do bretão, devido à interação entre os idiomas britânicos e o gaulês.
Não existem registros escritos deste momento da história do Bretão, que se estendeu até o Século VIII. Bretão antigo A partir do Século IX d.C., os registros escritos do Bretão passam a ser mais frequentes que em épocas anteriores, mas ainda sem grande expressividade. É desta época que data o Dornskrid Leiden (Manuscrito de Leida), primeiro texto em bretão do qual se tem conhecimento. A este momento do idioma corresponde o bretão antigo, predominante até o Século XI. As referências deste período da língua além do Dornskrid Leiden (bretão; Manuscrit de Leyde em francês) são limitadas a nomes de lugares e pessoas e poucas palavras em dicionários. Neste mesmo momento, a fronteira entre o bretão e o galo é definida.
Bretão médio O bretão médio é marcado pela influência de línguas românicas, bem como empréstimos linguísticos, especialmente do francês. Um exemplo disso é o Catholicon, publicado em 1499, que consiste em um dicionário em bretão, francês e latim.
Bretão moderno A partir da metade do Século XVII, o bretão moderno é a variação predominante entre os falantes do idioma. Alguns estudiosos sugerem a subdivisão do período em dois para refletir os momentos de publicação das obras de dois autores essenciais para a compreensão do bretão moderno: o padre Julian Maunoir e Jean François Le Gonidec.
Maunoir é o autor de "Le Sacré Collège de Jésus" (1659), uma obra de caráter catequético inteiramente na língua bretã acompanhado de um dicionário bretão-francês que apresentava algumas das novas características do bretão moderno, como a distinção entre o Dígrafo <ch> e o diacrítico <c'h>.
Já em 1807, Le Gonidec publicou sua "Grammaire celto-bretonne" (em português: Gramática celto-bretã) e, 20 anos depois, o "Dictionnaire celto-breton" (em português: dicionário celto-bretão). Em sua obra, Le Gonidec propôs um novo sistema de escrita baseado no Leonég. Algumas das características desse sistem envolviam a diminuição de empréstimos do francês.
Durante os primeiros anos do século XX, um grupo de escritores conhecido como Emglev ar Skrivagnerien elaborou e reformou o sistema de Le Gonidec. Eles o tornaram mais adequado como uma representação superdialetal dos dialetos de Cornouaille, Leon e Trégor (conhecido como de Kernev, Leon e Treger em bretão). Esta ortografia KLT foi estabelecida em 1911. Ao mesmo tempo, escritores do dialeto Vannetais mais divergente desenvolveram um sistema fonético também baseado no de Le Gonidec.
Durante muito tempo houve consideráveis variações na grafia dos sons da língua bretã. Então, em 1908 a ortografia dos três dialetos Kerneveg, Leoneg e Tregerieg, foi unificada no chamado KLT. O Gwennedeg não foi incluído na reforma, mas foi inserido na reforma ortográfica de 1941.
À medida que as diferenças fonéticas e fonológicas entre os dialetos começaram a aumentar, muitas regiões, particularmente Vannes, começaram a criar suas próprias ortografias. Muitas dessas ortografias estavam mais relacionadas ao modelo francês, embora com algumas modificações. Exemplos dessas modificações incluem a substituição do bretão antigo ⟨-z⟩ por ⟨-h⟩ para denotar o final da palavra /x ~ h/ (uma evolução do bretão antigo /θ/ no dialeto de Vannes) e o uso de ⟨-h⟩ para denotar a mutação inicial de / k / (hoje essa mutação é escrita como ⟨c'h⟩). Seguindo propostas feitas durante a década de 1930, as ortografias KLT e Vannetais foram fundidas em 1941 para criar um sistema ortográfico para representar todos os quatro dialetos. Esta ortografia peurunvan ("totalmente unificada") foi significativa para a inclusão do dígrafo zh, que representa a / h / em Vannetais e corresponde a a / z / nos dialetos KLT.
Hoje, a maioria dos escritores continua a usar a ortografia peurunvan, e é a versão ensinada na maioria das escolas de língua bretã. Na década de 1970, uma nova ortografia padrão foi concebida - o etrerannyezhel ou interdialectale. Este sistema é baseado na derivação das palavras.
Atualmente, o bretão pode ser ouvido em um bom número de estações de rádio por algumas horas e há um programa semanal bretão na TV, com uma hora de duração. Há ainda algumas revistas semanais e mensais escritas na língua.
História da documentação O primeiro registro escrito da língua data de 790. Trata-se do Manuscrit de Leyde, um tratado de botânica, redigido em bretão e em latim. O primeiro texto impresso em bretão, uma peça romântica, surgiu em 1530. O século XIX marcou o renascer da literatura bretã.
Os primeiros textos bretões existentes, contidos no Manuscrito de Leyde datam de 50 anos antes dos Juramentos de Estrasburgo, considerado o primeiro exemplo do francês. Como muitas ortografias medievais, a ortografia do bretão antigo e médio não foi padronizada a princípio, e a grafia de uma palavra em particular variava a critério dos autores. Em 1499, entretanto, o Catholicon (dicionário trilíngue) foi publicado; como o primeiro dicionário escrito para francês e bretão, além das traduções em Latim, tornou-se um ponto de referência para a transcrição da língua. A ortografia apresentada no Catholicon era muito semelhante à do francês, em particular no que diz respeito à representação das vogais, bem como ao uso do dígrafo latino ⟨qu⟩ - um remanescente da mudança de som /kʷ/>/k/ em latim — e britânico ⟨cou-⟩
História do Ensino Entre 1880 e meados do século XX, o ensino do bretão foi banido das escolas, e as crianças eram punidas se falassem a língua. Isso mudou, porém, em 1951 com a promulgação da Lei Deixonne, que passou a permitir o ensino da cultura e da língua bretã, três horas por semana, nas escolas públicas, se os professores assim o quisessem e conhecessem a língua. Desde então, muitas escolas e mesmo faculdades foram preparadas para educação em bretão ou bilíngue (bretão - Francês).
Fonologia O bretão apresenta 33 fonemas, entre vocálicos e consonantais, além de suas variações. Na fonologia deste idioma, é evidenciada a influência do francês em sua construção, como por exemplo, fonotática e na definição das sílabas tônicas de vocábulos.
Consoantes O número de fonemas consonantais do bretão não é exato. No entanto, verificando-se as diferentes pronúncias dos 4 dialetos principais, é possível se deduzir que sejam 24 fonemas ao todo, destacados a seguir:
Vogais A língua bretã tem, ao todo, 10 fonemas vocálicos. Todos estes fonemas podem ser anasalados, fênomeno representado na ortografia pela adição de <n>; além disso, podem ser tanto longos quanto curtos.
Transformações fonológicas