A Língua macuxi é uma das línguas karib, pertencente ao ramo venezuelano da família karib e sendo falada por mais de 15 mil pessoas no estado brasileiro de Roraima, na Guiana e na Venezuela. Os falantes nativos da língua são o povo indígena da etnia macuxi, os quais habitam a nordeste de Roraima em diversas comunidades, localizadas na região circum-Roraima, onde habitam em conjunto com outros povos indígenas da região.
A língua macuxi é referida pelo Atlas de línguas em perigo no mundo da UNESCO (2010) como em estado "vulnerável". Nesse sentido, as comunidades falantes da língua têm feito esforços para preservá-la por meio do ensino do macuxi em escolas indígenas locais a fim de continuar transmitindo sua língua e cultura herdadas através de seus antepassados. Outra medida importante de preservação foi a cooficialização das línguas macuxi e wapichana no município de Bonfim localizado no estado de Roraima, sendo Bonfim a 3ª cidade brasileira a ter uma língua indígena como oficial.
O macuxi é escrito utilizando o alfabeto latino, fruto do contato dos macuxis com jesuítas que contribuíram no desenvolvimento de uma escrita para a língua. Esse contato também culminou em uma grande conversão da etnia ao cristianismo, a qual pratica a religião também em sua língua de origem.
A ordem padrão dos elementos sintáticos da frase transitiva em macuxi é OVS (Objeto-Verbo-Sujeito). Esse alinhamento é extremamente raro e só está presente em 0,9% das línguas do mundo.Ademais, a duração dos fonemas é muito importante fonologicamente para a língua também. Um exemplo disso é que se a pronúncia da vogal de uma palavra for alongada, essa palavra pode ter seu significado alterado. Etimologia Macuxi, macusi, makushi, makuxi, makuchi, (ou na escrita nativa: makusi) são todos endônimos da língua, derivados da mesma possível origem relacionada à partícula -maku, nos quais altera-se sutilmente a grafia e a pronúncia dependendo da língua em que é falado ou escrito. Por exemplo: na língua portuguesa se escreve macuxi, na língua inglesa se escreve macushi, etc.
Essa partícula maku pode ser encontrada no nome da principal entidade da cosmologia macuxi denominada Makunaimî que integra as partículas: maku significando "povo que existia no passado" e naimî que significa "grandeza". Ou seja, Makunaimî é "o grande povo que existia no passado". Essa relação entre Makunaimî e o povo antigo simboliza a importância da ancestralidade para o povo macuxi por meio de seus mitos e histórias, uma vez que a partícula maku também é utilizada no nome da própria língua: makusi.
Acerca de Makunaimî, ressalta-se que o personagem literário "Macunaíma" da obra "Macunaíma: o herói sem nenhum caráter" de Mário de Andrade é fortemente inspirado pela entidade mitológica dos macuxis e outros povos pemon. O arquétipo de Macunaíma enquanto personagem foi baseado em Makunaimî, sendo ambos considerados personagens ambíguos, astutos e mediadores entre mundos.
Distribuição
Os falantes da língua macuxi são indígenas da etnia macuxi distribuídos na área circum-Roraima, compreendida pelas terras altas e a região de planície vizinhas em torno da cadeia de montanhas de Roraima, onde os povos kapon e pemon têm suas terras natais tradicionais. De forma mais prática, trata-se da região de fronteira entre o Brasil, Venezuela e Guiana, tendo o monte Roraima como principal referência geográfica. miniaturadaimagem|Monte Roraima
Os macuxi da região circum-Roraima estão concentradas, principalmente à nordeste de Roraima, em sua maioria nas Terras Indígenas (TI) de Raposa-Serra do Sol (85 aldeias) e São Marcos (24 aldeias), além de aldeias isoladas nos vales dos rios Uraricoera, Amajari e Cauamé. Na porção guianense, estima-se que habitam 50 aldeias no interflúvio Maú(Ireng)-Rupununi. miniaturadaimagem|Povoado macuxi Apesar da ampla presença do povo macuxi nessas regiões, nem todos da etnia são falantes da língua macuxi. Os mais jovens estão aprendendo a língua portuguesa como língua materna por influência da colonização europeia, marginalização e preconceito com a sua língua e cultura indígenas historicamente tratadas como inferiores. Dessa forma, o macuxi é uma língua que tem sido, em sua maioria, utilizada pelos mais velhos, os quais são os principais responsáveis por manter a língua viva entre a população. Estima-se que mais de 32% do povo macuxi ainda fale a língua atualmente.
Dialetos
O macuxi apresenta dois dialetos principais entre seus falantes: o dialeto das serras e o dialeto do lavrado. O dialeto das serras é mais praticado pelos macuxi que vivem na região das serras, as quais se localizam ao norte do monte Roraima. Enquanto isso, o dialeto do lavrado é falado pelos macuxi das regiões de planície, localizadas ao sul do monte Roraima.
Línguas pemonguianas Abbott aponta o macuxi como mutualmente inteligível com a língua taurepangue e intimamente relacionado com as línguas akawaio, kamaracoto e patamona. Essas línguas são todas de povos que habitam a região circum-Roraima, onde acredita-se ter sido a origem dos povos de família linguística karib que se expandiram rumo às ilhas do Caribe ao norte e em direção à bacia do Xingu ao sul. O macuxi pertence ao ramo venezuelano e, mais especificamente, ao grupo pemonguiano da família, o qual se divide nos subgrupos pemong e kapon. O povo macuxi tem mais contato com os povos pemon, dos quais muitos são falantes de taurepangue, o que justifica a inteligibilidade. +Comparação entre cognatos pemonguianosMacuxiTaurepangueAkawaioSignificadotunatunatunaáguaa'nea´neka'ne'quenteekaranmapo'ekamapoekama'poperguntarderenerenerencançãoioroiroroikaroi/eroicaju História
A língua e sociedade macuxi contemporâneas são fruto de suas históricas relações com os indígenas e não-indígenas. A chegada dos colonizadores foi responsável por mudanças estruturais na composição étnica da região circum-Roraima.
Formação da língua
Antes de qualquer europeu chegar na Abya Yala (continente americano), aponta-se que, há mais de mil anos, a família linguística karib era uma única língua, trazida pelos primeiros povos que passaram a habitar a região circum-Roraima: tribos asiáticas que emigraram pelo estreito de Bering, e que com a diáspora para outras regiões, as línguas divergiram. A partir das mudanças que o povo macuxi começou a inserir em sua fala, a língua homônima passou a existir. Primeiros registros A vinda dos colonizadores portugueses no século XVIII às regiões onde os macuxi viviam, levou a diversas mudanças na relação dos macuxi com a própria língua.
Os primeiros registros a surgirem foram de estudiosos que eram, em sua maioria, da Europa.Em 1832, o naturalista austríaco Johan Natterer foi a primeira pessoa a redigir uma lista de vocabulário da língua, a qual se tornaria importante para os estudos que viriam a seguir.
Durante o século XIX, outros estudiosos como o etnógrafo brasileiro Rodrigues e Lucien Adam produziram mais listas de vocabulário macuxi e de outras línguas caribes, tendo sido o trabalho de Adam amplamente usado em análises comparativas pela qualidade do que foi apresentado. Posteriormente, já no século XX, alguns trabalhos que se destacaram foram os do etnógrafo e linguista alemão Theodor Koch-Grünberg que escreveu alguns vocabulários e alguns itens gramaticais e o de Curt Nimuendajú que coletou listas de palavras e expressões macuxi, catalogando-as com sua própria coleção de símbolos fonéticos.
Missionários da igreja católica e estudiosos do Summer Institute of Linguistics (SIL) também realizaram estudos acerca da língua macuxi e outras línguas amazônicas, entre esses se destacam Miriam Abbott. Juntamente a esses, o Museu Paraense Emílio Goeldi também tem apoiado a pesquisa de línguas karib. miniaturadaimagem|Homem macuxi. Mudanças linguísticas e culturais Perdas culturais
As relações violentas entre os não-indígenas e os macuxis levaram a perdas significativas para a identidade, cultura e língua macuxis. As práticas focadas em envolver os macuxi à sociedade envolvente, as quais incluiram usar a população como mão-de-obra forçada em fazendas levaram-os a desvalorizar a própria língua considerada como "gíria", enquanto apenas o português era a língua "boa" como diziam os brancos.
Houve também órgãos que contribuíram para o apagamento da cultura e língua macuxi, sendo esses principalmente: a missão da Ordem de São Bento e o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) focados em, respectivamente, catequizar e estimular o aprendizado pelas crianças da cultura dos brancos em detrimento da cultura macuxi, a partir do ensino da língua portuguesa em escolas indígenas nas comunidades macuxi, por exemplo. Essencialmente, esses órgãos convergiram no propósito de dominar o povo macuxi no campo cultural e religioso, além de contribuir no apagamento de sua língua.
Esse contexto de dominação cultural e religiosa sobre os macuxi também levou à escrita da Bíblia Sagrada em língua macuxi após estudos de diversos missionários da Igreja Católica focados em evangelizar os indígenas. Todo esse contexto, levou muitos macuxis a se converterem ao cristianismo, inclusive, a maior parte do povo macuxi se considera adventista.
Empréstimos do português
O contato entre macuxis e europeus, juntamente à mudança do estilo de vida macuxi graças ao envolvimento com a sociedade envolvente levaram à ocorrência de alguns empréstimos linguísticos que não costumavam ser do cotidiano do povo macuxi, sendo essa uma mudança notável que a língua apresentou durante o tempo. Pode-se citar como exemplo desses empréstimos, os nomes de animais que os macuxi passaram a criar após conhecê-los devido ao contato com não-indígenas. +Empréstimos do português em macuxiMacuxiPortuguêspakavacapotibode/cabrakariunagalinhakawarecavalo Preservação atual da língua Recentemente, diferentes ações têm sido tomadas no âmbito da preservação da língua macuxi que tem sido cada vez menos falada pelos mais jovens que a usam normalmente apenas como segunda língua. A principal dessas ações têm sido o ensino da língua em escolas indígenas, principalmente, para jovens.
O ensino da língua macuxi nas escolas tem se mostrado essencial para sua preservação em meio à comunidade indígena, fruto de lutas por uma educação indígena libertadora em Roraima que contemple os anseios e particularidades das populações indígenas.Um grande feito no âmbito da pedagogia da língua macuxi foi a escrita de uma Gramática Pedagógica da Língua Macuxi pela Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIRR) para auxiliar outros professores no ensino da língua nas comunidades e levar o conhecimento das língua e cultura indígenas para qualquer leitor.
Além dessas medidas, a cooficialização das línguas macuxi e wapichana no município de Bonfim e Cantá em Roraima através da lei Nº 211 de 04 de dezembro de 2014 também constituiu um avanço significativo na valorização e preservação da língua, sendo Bonfim o 3º município brasileiro a ter uma língua indígena como oficial.
Em linhas gerais, o status de língua cooficial obriga os municípios a: prestar os serviços públicos básicos de atendimento ao público nas duas línguas cooficiais, produzir a documentação pública nas duas línguas e incentivar o aprendizado e o uso das línguas cooficiais nas escolas, comunidades e nos meios de comunicação.
Fonologia Consoantes
O macuxi conta com 11 fonemas consonantais, divididos em 5 obstruentes (//,//,//,//e // )e 6 soantes(//,//,//,/,// e //).Algumas dessas consoantes contam com alofones: //,//e // são alofones de //; // é alofone de //; / é alofone de //; //, // e // são alofones de // e // é alofone de //.
As consoantes /p/; /t/ e /k/ podem sofrer um processo de alongamento, o que indica que a duração dos fonemas é de considerável relevância fonológica na língua e podem ser representadas por /p:/; /t:/ e /k:/. Em geral, seguem abaixo os fonemas consonantais da língua macuxi: