A Citânia de Briteiros é um sítio arqueológico céltico da Idade do Ferro, situado no alto do monte de São Romão, na antiga freguesia de Salvador de Briteiros, município de Guimarães, em Portugal. Consiste num castro ou povoado fortificado de grandes dimensões, composto por um núcleo urbano central no topo da colina, e um conjunto de muralhas que defendia o povoado em si. É considerado um dos principais sítios arqueológicos da proto-história em território nacional, tendo permitido um estudo aprofundado da cultura e organização urbana castreja do Norte do país. Foram encontrados vestígios de uma complexa organização urbana, com uma malha de ruas a delimitarem zonas áreas públicas e privadas, e um grande conjunto de residências de formatos diversos, dois balneários, num dos quais foi descoberta a famosa laje conhecida como Pedra Formosa, e um edifício central de reuniões.

A colina foi habitada desde os finais do neolítico e o calcolítico, mas o castro em si é muito mais tardio, tendo atingido o seu auge entre os séculos II a I a.C.. Porém, entrou em declínio após a conquista romana, tendo deixado de ser permanentemente habitado no século II d.C., embora a ocupação tenha-se provavelmente prolongado até ao século IV. Embora as ruínas sejam conhecidas pelo menos desde o século XVI, os primeiros trabalhos arqueológicos só se iniciaram na década de 1870, por Francisco Martins Sarmento. A Citânia de Briteiros foi classificada como Monumento Nacional em 1910. Em 1930 iniciou-se uma nova fase de investigações arqueológicas, coordenadas por Mário de Vasconcelos Cardoso, presidente da Sociedade Martins Sarmento, que terminaram em 1968. Entretanto, entre 1956 e os finais da década de 1970 também se levou a cabo um conjunto de campanhas arqueológicas regulares, e em 1977 foi feita a primeira sondagem que se enquadrou nas técnicas de escavação introduzidas pela moderna arqueologia científica. Depois de trabalhos pontuais na década de 1980 e em 2002, em 2004 teve início uma nova série de estudos da Citânia de Briteiros, por parte da Sociedade Martins Sarmento e da Universidade do Minho.

Descrição Localização O sítio arqueológico da Citânia de Briteiros corresponde a um antigo povoado fortificado de grandes dimensões, com uma área total de cerca de 24 hectares, dos quais apenas cerca de sete hectares fazem parte da zona visitável. Está situado no cume do Monte de São Romão, nas margens do Rio Ave, que no seu ponto mais elevado atinge os 336 m de altitude. Este local foi provavelmente escolhido por permitir um bom controlo visual sobre a área em redor, e ao mesmo tempo tinha acesso fácil ao rio, com os seus recursos piscíscolas. A colina onde se situa faz parte do conjunto montanhoso da Falperra-Sameiro, entre os concelhos de Guimarães e Braga.CRUZ, 2020:17

Está situado na área setentrional do concelho de Guimarães, a cerca de quinze quilómetros de distância da sede do município. O acesso ao sítio arqueológico faz-se a partir da EN 101, depois pela EN 310, e finalmente por estradas municipais, passando por São Salvador de Briteiros. Junto ao sítio arqueológico corre um lanço da Estrada Nacional 309.CRUZ, 2020:26

Conservação e importância O sítio arqueológico da Citânia de Briteiros está classificado como Monumento Nacional. É considerado como um dos mais importantes povoados proto-históricos na Península Ibérica, devido às suas grandes dimensões, pela monumentalidade das muralhas, a arquitectura dos edifícios, e a organização urbana. Em conjunto com a Citânia de Sanfins, em Paços de Ferreira, é igualmente um dos sítios arqueológicos onde pode ser melhor estudada a cultura castreja na área Noroeste do país. É também considerado como um ex-libris da União de Freguesias de Briteiros - São Salvador e Briteiros - Santa Leocádia.

Composição

Acrópole A Citânia de Briteiros era principalmente composta por uma área central cercada por várias linhas de muralhas. Esta zona central, também conhecida como acrópole, tinha cerca de 250 x 150 m, e era formada por vários edifícios residenciais e áreas públicas, como a Casa do Conselho e o complexo dos balneários, sendo o interior cruzado por uma rede de arruamentos de configuração ortogonal, com dois caminhos principais. É de especial interesse a forma como as áreas no interior estavam organizadas em redor destas ruas, formando pequenos núcleos semelhantes a quarteirões, com uma separação óbvia entre espaços privados e públicos, com por exemplo uma zona ocupada apenas por unidades familiares e núcleos destinados a famílias grandes. A rua principal, que era a mais extensa, tinha um percurso no sentido de Sudoeste para Norte, iniciando-se perto de um dos balneários e terminando na área mais elevada da povoação. A partir desta artéria partiam várias ruas secundárias, que separavam os bairros.

A maior parte das casas eram de planta circular, e provavelmente albergariam famílias extensas. Cada conjunto familiar era composto por um pequeno complexo de edifícios, de funções diferentes, e que estavam rodeados por um muro. O edifício principal era normalmente circular, e tinha um pátio exterior, com lajeado, tendo sido encontrados vestígios de bancos nalguns destes espaços. Por vezes este conjunto incluía outros edifícios circulares, que provavelmente pertenceriam a outros ramos da mesma família, talvez os membros mais jovens. Alguns dos edifícios de planta rectangular não seriam casas, mas armazéns para guardar alfaias, ferramentas e alimentos, e de acordo com o arqueólogo Armando Coelho, os conjuntos residenciais também incluiriam uma cisterna. Os complexos residenciais situados no ponto mais elevado da colina seriam provavelmente habitados pelas famílias mais ricas e importantes, como a chamada Casa de Coronero, que segundo o arqueólogo Francisco Sande Lemos, «estava localizada num dos pontos mais simbólicos da Citânia, num local elevado, com uma ampla panorâmica sobre o vale do rio Ave».

Entre os edifícios residenciais, também se destacam as chamadas Casa da Espiral e a Casa de Auscus. A primeira apresenta vários elementos típicos da Idade do Ferro, sendo formada por um conjunto de três casas circulares em redor de um pátio central lajeado, sendo este complexo delimitado por um muro. A Casa de Auscus era uma unidade residencial de tipologia domus, composta por edifícios de planta rectangular que também rodeavam um pátio lajeado, igualmente de forma rectangular. O nome desta última advém de ter sido encontrado um elemento arquitectónico com a inscrição Auscus, que poderia ter sido o nome da família ou apenas do proprietário. Em ambos os casos foram encontrados elementos decorativos, incluindo lintéis ornamentados, que pode indicar que os seus proprietários seriam mais abastados e/ou teriam posições sociais elevadas. Ao contrário da maioria das povoações fortificadas em território nacional, que concentravam um pequeno número de casas, a Citânia de Briteiros era de grandes dimensões, tendo Martins Sarmento escavado mais de duas centenas de estruturas habitacionais, estimando-se que este número corresponderia apenas a metade do total no interior do recinto. A maioria das casas eram de planta circular, com um diâmetro aproximado de cinco metros, enquanto que as restantes eram rectangulares, com alguns exemplares onde os cantos interiores eram arrendondados. As paredes eram constituídas por pedras unidas por terra amassada, e eram muito grossas, com uma espessura aproximada de meio metro, e o telhado era de colmo, tendo algumas recebido telhas após a conquista romana. Nas casas circulares, o telhado era igualmente suportado por uma vara de madeira no centro do edifício, que estava fixada numa pedra enterrada no solo. Os pavimentos eram normalmente em terra natural, ou de barro batido. Duas das casas circulares foram reconstruídas por Martins Sarmento, no sentido de dar uma ideia aos visitantes de como seriam estes edifícios.

Num artigo escrito por Guedes de Amorim e Sousa Martins e publicado na revista Ilustração em 1930, refere-se que «logo à entrada desta povoação [...] os nossos olhos registam a fonte - hoje, o povo, chama-lhe «fonte sêca» - e a caleira que conduzia a água».

A flora no interior do sítio arqueológico também tem merecido especial atenção, tendo um pinheiro-manso com cerca de 120 anos sido classificado como árvore de interesse público em 2021, na iniciativa Árvore do Ano 2023, organizada pelo Laboratório da Paisagem, em Guimarães, foi o segundo exemplar mais votado.

Casa do Conselho No ponto central do castro foi identificada uma estrutura circular de grandes dimensões, com cerca de 11 m de diâmetro, que tinha no seu interior um banco corrido em pedra, tendo sido identificada como a Casa do Conselho, onde seriam feitas as reuniões dos anciãos, tendo alguns autores avançado a teoria que também poderá ter sido utilizada em banquetes. O edifício apresentava várias semelhanças com um outro encontrado no Castro do Vieito, no concelho de Viana do Castelo, incluindo a presença de um banco corrido no seu interior. Um elemento de especial interesse neste imóvel é uma gravura num dos blocos de granito que formam o banco corrido, representando uma arma, identificada como uma falcata, um tipo de espada curta, que foi utilizada em diferentes regiões da Península, entre os séculos V e I a.C.. Esta foi a única gravura encontrada nas pedras do banco, pelo que poderia ter simples funções decorativas, ou então poderia ter algum significado para os utilizadores do edifício, uma vez que geralmente os chefes locais utilizavam figuras como armas e guerreiros como símbolos de poder.

No artigo de 1930, este edifício foi descrito como tendo originalmente cinco divisões, em contraste com as restantes casas, que eram de divisão única, nalguns casos com um pequeno vestíbulo na zona de entrada. Faz-se igualmente referência a uma casa cujos muros apresentavam um aparelho de pedras em fiadas regulares, organizadas em forma de hélice, sistema que era conhecido pelos romanos como opus reticulatum. Algumas das casas tinham à sua entrada pedras lavradas com desenhos estilizados, tendo sido descoberto um baixo relevo com duas figuras humanas muito simples. Foram igualmente encontradas as bases de duas colunas, que provavelmente também serviriam para decorar a entrada de uma residência.

Balneários e capela de São Romão Destacam-se também os dois balneários, um situado no canto sudoeste, junto à estrada, e outro no lado oriental. Ambos estavam situados fora das zonas residenciais, pelo que poderiam ter estado abertos ao público em geral, embora provavelmente com grandes restrições, podendo também estar ligados a funções rituais. O balneário no lado Sudoeste ficou melhor preservado, tendo permitido identificar a organização interna, sendo composto por um átrio, onde estavam os tanques, a antecâmara e a câmara, e um forno. O balneário oriental era um edifício relativamente grande, tendo provavelmente sido aqui que foi descoberta a chamada Pedra Formosa. No interior do complexo também foram encontradas estruturas mais funcionais, como estábulos, armazéns, oficinas e recintos para o gado. Com efeito, é muito possível que se tivessem ali desenvolvido indústrias ligadas à metalurgia, devido à riqueza de várias peças encontradas.

No local destaca-se igualmente a presença da Capela de São Romão, que substituiu uma ermida mais antiga com o mesmo nome, já desaparecida, cujo local foi marcado por um cruzeiro. Nas imediações do cruzeiro foram encontrados os vestígios de um cemitério cristão, provavelmente associado ao santuário original. A capela é de pequenas dimensões, e foi construída utilizando pedra dos antigos edifícios castrejos em redor.

Muralhas e acessos