Ibne Almujauir (; fl. início do ) foi um viajante, geógrafo e provavelmente comerciante muçulmano, conhecido sobretudo como autor do Tārīkh al-Mustabṣir, uma descrição geográfica da Arábia ocidental e meridional. Sua identidade é incerta: embora durante muito tempo tenha sido identificado com Jamaladim ou Najemadim Abu Alfata Iúçufe ibne Iacube ibne Maomé Axaibani Adimaxequi, a evidência interna de sua obra indica uma genealogia diferente, e seu nome próprio é atualmente considerado desconhecido. As viagens documentadas de Ibne Almujauir ocorreram sobretudo nas décadas de 1220 e 1230 e abrangeram a Península Arábica e regiões do oceano Índico, incluindo o Hejaz, o Iêmem, Hadramaute, Omã e a Índia. Seu Tārīkh al-Mustabṣir reúne itinerários e descrições de cidades, tribos e rotas, além de informações sobre costumes, comércio, navegação, agricultura, moedas, pesos e medidas. Particularmente detalhada em relação às costas da Arábia, a obra constitui uma importante fonte para a geografia e a história econômica e social do Hejaz e do Iêmem na primeira metade do .

Vida

A identidade de Ibne Almujauir é incerta. Durante muito tempo, foi identificado com Jamaladim ou Najemadim Abu Alfata Iúçufe ibne Iacube ibne Maomé Axaibani Adimaxequi, natural de Damasco, que teria nascido em 601 A.H. (1204–1205) e morrido em 690 A.H. (1291). Essa identificação baseava-se sobretudo na atribuição tradicional do Tārīkh al-Mustabṣir a esse personagem, embora as notícias biográficas a seu respeito não contenham informações que permitam relacioná-lo às viagens descritas na obra. A identificação foi posteriormente contestada com base no próprio texto, no qual o autor menciona seu pai como Maomé ibne Maçude ibne Ali ibne Amade Almujauir Albagdadi Anaiçaburi, genealogia diferente daquela atribuída ao personagem com quem fora identificado. Seyyid considera, portanto, desconhecido o nome próprio do autor e distingue-o do Iúçufe ibne Iacube a quem a obra fora anteriormente atribuída.

As informações biográficas seguras sobre Ibne Almujauir provêm principalmente de seu próprio relato de viagens. Era provavelmente um comerciante e possuía experiência de navegação. Encontrava-se na Índia em 618 A.H. (1221–1222) e nesse mesmo ano esteve em , no Sinde, e em Adem, de onde navegou para Zabide. Visitou esta última cidade pelo menos três vezes, em 619, 624 e 626 A.H., e esteve em Meca em 621 A.H. Também percorreu outras regiões do Hejaz, do Iêmem, de Hadramaute e de Omã e registrou informações sobre localidades da costa oriental da África e Mogadíscio. Seu conhecimento das rotas marítimas e dos guias de navegação indica familiaridade direta com o comércio e a navegação do oceano Índico.

Ibne Almujauir esteve ainda em Gidá antes e depois da destruição do chamado túmulo de Eva e menciona sua presença em , no Iêmem. A última data explicitamente registrada em sua narrativa é Dulrija de 626 A.H. (1229), e indícios internos apontam que o Tārīkh al-Mustabṣir foi composto não muito tempo depois. Algumas reconstruções de seus itinerários admitem viagens mais extensas pelo oceano Índico, possivelmente alcançando a costa oriental africana, as Comores e até Java, embora nem todos esses deslocamentos possam ser estabelecidos com a mesma segurança. A data e o local de sua morte são desconhecidos; foi proposta uma morte no mar por volta de 630 A.H. (1233), mas essa informação permanece conjectural.

Tārīkh al-Mustabṣir

Ibne Almujauir é conhecido sobretudo como autor do Tārīkh al-Mustabṣir, obra geográfica dedicada principalmente à Arábia ocidental e meridional. Apesar do título, não constitui propriamente uma história contínua, mas uma reunião de itinerários, descrições geográficas, informações sobre cidades e tribos e notícias históricas. O itinerário começa nas proximidades de Medina, segue para Meca e, a partir daí, acompanha diferentes trechos do litoral da Península Arábica. O autor registra as distâncias entre as localidades, geralmente em parasangas, e fornece descrições de cidades como Diu, Dófar e Adem. A obra inclui ainda descrições e mapas esquemáticos de algumas localidades.

A obra é particularmente detalhada na descrição das costas da Arábia e constitui uma importante fonte para a geografia do Iêmem e do Hejaz na primeira metade do . Além de itinerários e características das localidades, Ibne Almujauir registrou informações sobre costumes, casamentos, escravidão, pesos e medidas, moedas, tecidos, agricultura, vinho, navegação, comércio e direitos alfandegários. Parte de seus dados foi obtida diretamente durante as viagens, por meio de informações fornecidas por beduínos e habitantes das cidades. Outras passagens derivam de autores anteriores, entre eles , o historiador de Meca, , historiador de Zabide, e Ibne Haucal, nem sempre mencionados explicitamente como fontes. A obra contém também relatos sobre a Índia, Ceilão e outras regiões do oceano Índico, embora algumas dessas narrativas sejam de caráter lendário ou de autenticidade duvidosa.

Ibne Almujauir demonstra ainda interesse por tradições locais e explicações de topônimos. Seu relato combina observações pessoais com notícias recolhidas oralmente e materiais provenientes de obras anteriores. O tratamento que oferece do litoral da Arábia é mais detalhado que o encontrado nas obras de outros geógrafos árabes. Também compôs poesia e incluiu no Tārīkh al-Mustabṣir versos próprios em árabe e persa. A amplitude das informações econômicas, sociais e geográficas preservadas na obra tornou-a uma fonte relevante para o estudo das rotas comerciais e marítimas da Arábia e do oceano Índico medieval.

Bibliografia

Categoria:Árabes do século XIII