A IV Reunião de Estudos do Setor de Responsabilidade Social da Igreja, também conhecida como Conferência do Nordeste, foi um evento promovido pelo Departamento de Estudos da Confederação Evangélica do Brasil, realizado na cidade de Recife (PE), entre os dias 22 e 29 de julho de 1962*. Recife foi escolhida como sede da conferência por ser considerada a “capital do Nordeste”, região tida como o centro das preocupações nacionais e internacionais, bem como em resposta às queixas de irmãos e irmãs nordestinos de que reuniões importantes se restringiam às regiões Sul e Sudeste. A conferência reuniu intelectuais e representantes das principais igrejas evangélicas do Brasil sob o tema “Cristo e o processo revolucionário brasileiro”. O evento figurou como “uma tentativa de tomar contato com a realidade brasileira, interpretá-la à luz da revelação cristã e buscar soluções evangélicas para os problemas do momento”.
Organização da ConferênciaEquipeDenominaçãoJacqueline SkilesGlênio Vergara dos SantosJosué da Silva MelloGerson MouraRubens Mensen BuenoHilda HeesComissão Organizadora NacionalAlmir dos Santos (Presidente)MetodistaDavid Gomes (Vice-Presidente)BatistaEsdras Borges Costa (Secretário)PresbiterianoJether Pereira Ramalho (Diretor Financeiro)CongregacionalRodolfo Anders (Ex-Officio)PresbiterianoAharon Sapsezian (Votante)Congregacional armênioCesar Teixeira (Votante)PresbiterianoEdir Cardoso (Votante)U. C. E. B.Francisco Pereira de Souza (Votante)PresbiterianoJohn Nasstrom (Votante)LuteranoComissão Organizadora LocalHermes da Silva (Presidente)BatistaDorival Rodrigues Beulk (Secretário)MetodistaAntônio Salles da Silva (Tesoureiro)CongregacionalInaldo Lima (Hospedagem)PresbiterianoMauricio Wanderley (Hospedagem)PresbiterianoEdla de Oliveira (Divulgação)PresbiterianaMelval Rosa (Divulgação)BatistaWinfredo Becker (Divulgação)LuteranoIsaías da Silva Rêgo (Divulgação)BatistaTorqueto dos Santos (Relações Públicas)PresbiterianoAdemar de Melo (Relações Públicas)Brasil para CristoWaldo A. César (Secretário Executivo do Setor de Responsabilidade Social da Igreja)Carlos Alberto Cunha (Secretário Executivo da Conferência)
ANTECEDENTES
A Conferência do Nordeste foi a IV Reunião de Estudos do Setor de Responsabilidade Social da Igreja (anteriormente esse Setor se chamava Comissão de Igreja e Sociedade), vinculado à Confederação Evangélica do Brasil. Os temas das reuniões anteriores foram:
I Reunião de Estudos (1955) - A Responsabilidade Social da Igreja
II Reunião de Estudos (1957) - A Igreja e as Rápidas Transformações Sociais do Brasil
III Reunião de Estudos (1960) - A Presença da Igreja na Evolução da Nacionalidade
Principais pessoas presentes às reuniões preparatóriasDenominaçãoAharon SapsezianAlmir dos SantosAguinaldo CostaÁrpád Grippi-PappAretino Pereira de MattosAlfonso ZimmermannAlzemira MirandaBárbara HallBen-Hur MafraBela Mohai ZabóBeatriz CarvalhoClaudius CecconClaudio P. JorgeCarlos SimõesCaio ToledoCesar TeixeiraDavid MaltaDaniel SilveiraDavid ComesDina RizzoDorival R. BeulkeEber FerrerEdmund K. SherrilEpiscopal AnglicanoEsdras Borges CostaEdir CardosoEwaldo AlvesEdgar KuhlmannFrancisco Pereira de SouzaGlênio Vergara dos SantosGlaucia SoutoGerson MeyerGustavo VelascoJ. GomesJanos ApostolJacqueline SkilesJether P. RamalhoJaime FerreiraJohn NasstromJoaquim BeatoJosé Borges dos Santos Jr.José Geraldo da CostaLauro Monteiro da CruzLucula CruzLuis Carlos WeilLuis OdellMarcos Antonio FerreiraMaria Lêda ResendeMarilia CruzMessias Amaral dos SantosNorthon CidadeOrlando ValverdePaul AbrechtPetrônio CoutinhoPaulo YokotaRodolfo AndersRodolfo HasseRichard ShaullRicardo SaurRubem AlvesPresbiterianoRuediger BohnenkampSabatini LalliTheodoro Henrique Maurer Jr.Tomiko TanaamiIoshimichini EbizawaWaldo A. CesarWarwick KerrWilliam Schisler Filho
CONFERÊNCIA
A abertura da Conferência ocorreu às 16 horas, no Teatro do Parque, sendo noticiada nos principais jornais da cidade, devido à intensa articulação das equipes organizadoras. O teatro lotado contava com os representantes eclesiásticos (“Batistas, congregacionais, episcopais, luteranos, metodistas, presbiterianos, pentecostais, reformados, metodistas livres - e outros - num total de 14 denominações, sem contar com as cinco igrejas dos delegados fraternos dos Estados Unidos, do Brasil, México e Uruguai… Incluindo Pernambuco, dezesseis Estados [brasileiros]. Quando todo mundo acabou de chegar eram 167 participantes…”), jornalistas, autoridades civis, por exemplo, o presidente da Câmara Paulo Guerra e o governador Cid Sampaio, e a população interessada. O reverendo metodista Almir dos Santos foi o orador da noite sobre o tema da Conferência a partir do texto de Lucas 4:18–19.
Resumo da Conferência a partir dos relatos de Waldo A. César22, DomingoReverendo Almir dos SantosIgreja MetodistaCristo e o processo revolucionário brasileiro (Abertura)23, Segunda-feiraAdoração e LouvorReverendo Sebastião Gomes MoreiraIgreja Presbiteriana IndependenteCristo - A única soluçãoReverendo Joaquim BeatoSeminário Presbiteriano do CentenárioOs profetas em épocas de transformações políticas e
sociaisIntervaloProfessor Doutor Celso FurtadoSuperintendente da SUDENEO Nordeste no processo revolucionário brasileiroReverendo Curt KleemannIgreja Episcopal do BrasilA dimensão social da Ceia do Senhor (Meditação)Exposição
O Artista - servo dos que sofrem (Professor Gilberto Freyre)24, Terça-feiraReverendo João Dias de AraújoSeminário Presbiteriano do NorteA revolução do Reino De DeusProfessor Juarez Rubem Brandão LopesEscola de Sociologia de São PauloResistência à mudança social no BrasilProfessor Paulo SingerEscola de Sociologia de São PauloMudanças sociais da História ContemporâneaReverendo Curt KleemannIgreja Episcopal do BrasilMeditaçãoConversas sobre os aspectos da obra evangélica25, Quarta-feiraAdoração e LouvorPeríodo Livre (Turismo ou Seminário no Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife**)Bispo Edmund Knox SherrillIgreja Episcopal do BrasilA Missão total da Igreja numa sociedade em criseReverendo Curt KleemannIgreja Episcopal do BrasilUm homem chamado bonhoeffer (Meditação)Noite livre (Conversas casuais entre diversos grupos e a exposição de curtas-metragens)26, Quinta-feiraWaldo A. CésarSecretário Executivo do Setor de Responsabilidade Social da IgrejaNovas formas de ação da Igreja numa época revolucionária (Preleção para o início das discussões)Divisão e discussões dos Grupos de EstudoNoite no Teatro Santa Isabel
Peça do Teatro de Cultura Popular intitulada "Julgamento em Novo Sol"27, Sexta-feiraCulto de adoração sob a direção do pastor Helcio LessaDiscussões dos Grupos de Estudo28, SábadoDiscussões dos Grupos de Estudo, iniciam-se as despedidas.29, DomingoReverendo Curt KleemannIgreja Episcopal do BrasilCulto de encerramento
RECOMENDAÇÕES DOS GRUPOS DE ESTUDO
Os grupos de Estudo se reuniram formalmente a partir do dia 27 de julho de 1962 (5° dia da Conferência), sob duas “fronteiras”: FRONTEIRA ECONÔMICA (Grupos Urbano, Industrial e Rural) e a FRONTEIRA CULTURAL (Grupos Educacional, Estudantil e o Grupo de Arte e Comunicação). E ainda que existissem divergências entre os participantes da Conferência, ainda assim, os grupos foram aconselhados a ponderarem sobre recomendações gerais para a Igreja brasileira daquele período. Ao final, e após calorosas discussões, cada grupo redigiu textos curtos que foram “[Recomendações] aprovadas pela diretoria da Confederação Evangélica do Brasil e recomendados para estudo e meditação”.
Um exemplo seriam as recomendações do Grupo Urbano que em seu texto reconhecia o rápido e desordenado crescimento da vida urbana que diferia das necessidades humanas encontradas nas populações rurais e marginalizadas. Enquanto apontava para a dicotomia "mundo-igreja" como um dos principais fundamentos do distanciamento das igrejas de seus contextos sociais. E por isso, a Igreja somente poderia dar "testemunho concreto e específico" se conhecesse sua sociedade, através das ações corporativa e individual de seus membros, infiltrados na vida das cidades. Em seguida, apontava algumas características desse crescimento urbano-industrial como: extrema impessoalização e fragmentação das vidas e relações, as condições precárias da maioria da população que se via privada de serviços públicos básicos, especulação imobiliária e a inadequação do status quo social, jurídico e administrativo. Em resposta, o grupo declarava que a sua preocupação se baseava no conteúdo teológico da fé [cristã], o qual visa "o bem-estar do homem como todo, sem dissociar sua vida material de sua vida espiritual" e por isso, sentia que existia a necessidade de descobrir novas formas de ação da igreja para a transformação da realidade como uma forma de comunicar eficientemente a mensagem do Reino de Deus. Instava com urgência por ações de "tomada de consciência [da realidade] através do prisma teológico, sociológico, econômico, político e psicológico" e apontava que existia necessidade de reorganizar e planejar de maneira humana as cidades e seus habitantes, entendendo habitação como "moradia espaçosa, higiênica, confortável; fácil acesso aos locais de trabalho; luz, água, esgoto, telefone, escola, parque infantil, praça de esportes, mercado, ambulatório, hospital, biblioteca, etc". Recomendou-se, portanto, ações como a formação de grupos de estudo, o desejo de estabelecer contato com as diferentes realidades, a participação dos Seminários Teológicos na formação de lideranças (principalmente leigas), reexaminar formas de trabalho, comunicação e culto visando atender às necessidades das diferentes realidades sociais nas congregações, além disso, recomendava às igrejas que reinterpretassem sua ação social para além de "formas assistenciais... paliativas" sob a orientação técnica e especializada, a participação das igrejas e seus membros nas tentativas de organização urbana como, por exemplo, associações e partidos políticos, por fim, sugeria discussões sobre temas específicos como as condições de vida da população das favelas, reforma agrária, analfabetismo e sindicalização.
APÓS A CONFERÊNCIA
O Setor de Responsabilidade Social da Igreja organizou-se, nos anos posteriores ao evento, para divulgar a Conferência, suas recomendações oriundas dos Grupos de Estudo e incentivar debates, especialmente entre as igrejas vinculadas à Confederação Evangélica Brasileira. Entretanto, com o advento do golpe civil-militar de 1964, muitos dos envolvidos, direta ou indiretamente, com a Conferência do Nordeste foram denunciados e perseguidos, inclusive por suas próprias igrejas, o que acabou limitando significativamente a influência da Conferência. Vale salientar que antes e durante a Conferência, certos grupos evangélicos alardeavam que “os vermelhos” (leia-se comunistas) estariam promovendo uma reunião em solo nordestino.
NOTAS
*Pontua-se que esta conferência ocorreu alguns meses antes do Segundo Concílio do Vaticano (outubro de 1962).
**O Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife havia sido criado naquele ano (1962) pelo professor Paulo Freire, porém, Waldo César explica que apesar de convidado, o professor não conseguiu comparecer à conferência.
REFERÊNCIAS
Crônica sobre a Conferência
CÉSAR, Waldo et al. A CONFERÊNCIA DO NORDESTE: Cristo e o processo revolucionário brasileiro. v. 1. Rio de Janeiro: Editora Loqui, 1962.
Sessões, Palestras e Recomendações dos Grupos de Estudo
CONFEDERAÇÃO EVANGÉLICA DO BRASIL. A CONFERÊNCIA DO NORDESTE: Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro. v.2. Rio de Janeiro: Editora Loqui. 1962.
Matérias jornalísticas
BRAUN, Julia. Os evangélicos que se reuniram há 60 anos no Nordeste para discutir revolução social. 02 de julho de 2022. BEZERRA, Herlon. Cristo e o processo revolucionário brasileiro: 63 anos da Conferência Evangélica do Nordeste. 03 de agosto de 2025.
Trabalhos de Conclusão de Curso, Monografias, Dissertações e Teses