Os assassinatos de Brenda Wright Lafferty e Erica Lafferty foram um caso de duplo homicídio ocorrido no estado americano de Utah, em 24 de julho de 1984. Brenda, de 24 anos, foi encontrada morta pelo marido, Allan Lafferty, no chão de sua casa, em Utah, juntamente da filha do casal, Erica, de 15 meses. O caso ganhou publicidade substancial depois que os acusados afirmaram que os crimes foram resultado de uma revelação divina, Conforme o julgamento progrediu, porém, tornou-se claro que entre as motivações estavam seu fundamentalismo mórmon e sua sede de vingança.

Logo que capturados, Ronald Watson Lafferty e Daniel Charles Lafferty confessaram os assassinatos de sua cunhada e sobrinha. Ambos recusaram representação legal e a alegação de insanidade, pois não apenas acreditavam que nada haviam feito de errado, como também queriam que sua mensagem fosse ouvida como racional. Para eles, um bem maior os aguardava no céu e por isso não sentiam vergonha, mesmo com a perspectiva de enfrentarem a pena de morte, já que isso apenas os levaria ao céu mais rapidamente.

Os irmãos não sentiam outra emoção além da certeza em relação ao futuro e da convicção de que o mundo presente era uma farsa que deixaria de existir quando o mormonismo fundamentalista se tornasse o único caminho verdadeiro para a salvação.

Envolvidos

Brenda Lafferty Brenda Wright Lafferty cresceu em uma família devota, mas bastante liberal, no estado americano de Idaho. Cantora e atriz talentosa, formou-se em jornalismo na Universidade Brigham Young, em Provo, no Utah. No início da década de 1980, Brenda casou-se com Allen Lafferty, o irmão mais novo de uma família mórmon proeminente de Utah, conhecida por seus fortes valores. Aqueles que a conheceram descrevem-na como uma pessoa divertida, cheia de energia e de confiança. Dedicava-se ao marido e à filha pequena, Erica, assim como à igreja. No entanto, Brenda não tinha medo de discordar abertamente das visões fundamentalistas dos irmãos mais velhos de seu marido Allen, que, em sua opinião, contrariavam os ensinamentos mórmons.

Ron e Dan Lafferty Nascidos na fé mórmon na década de 1940, os irmãos Ron e Dan Charles Lafferty cresceram em Payson, Utah, com quatro irmãos, duas irmãs e seus pais, Warren e Claudine. Sua mãe era uma mulher submissa e Warren, propenso a acessos de raiva, batia na esposa. O patriarca da família se opunha veementemente tanto ao governo quanto à medicina moderna, sendo estritamente adepto de sua religião, chegando ao ponto de não permitir que um de seus filhos recebesse atendimento médico para um ferimento acidental de flecha no estômago, por ser o sabá. Disciplinador rigoroso, Warren certa vez matou o cachorro da família a pauladas na frente de todos os filhos, após ter brigado com a esposa.

Dan tornou-se especialmente próximo de Ron: ambos possuíam temperamentos explosivos semelhantes, além de crescentes desentendimentos com a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Depois de atuarem como missionários — Ron na Flórida e Dan na Escócia —, eles retornaram a Utah e se casaram em templos da SUD. Com o passar dos anos, as crenças dos irmãos se tornaram cada vez mais radicais, incluindo a poligamia, algo que sua igreja havia abandonado há muito tempo. Ambos acabaram sendo excomungados da igreja: Dan Lafferty em 1982, após tentar tornar sua enteada de 14 anos de idade sua segunda esposa — motivo que levou a esposa de Ron a se divorciar dele depois que o marido lhe contou seus planos, mudando-se junto com seus seis filhos para a Flórida —, e Ron Lafferty em 1983, por suas visões religiosas cada vez mais extremistas. A excomunhão dos irmãos, no entanto, não freou sua radicalização, acabando por aumentá-la.

Contexto

Escola dos Profetas Ron Lafferty e quatro de seus irmãos conheceram a Escola dos Profetas após a mudança do grupo para o Utah, em 1984, apoiando seu trabalho e rapidamente aderindo às ideias milenaristas ali ensinadas. A Escola havia sido fundada em 1982 em Boise, no Idaho, por Robert C. Crossfield, ex-membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, excomungado em 1971. Afirmando receber revelações desde 1961, Crossfield disse ter recebido instruções divinas para restaurar a Escola dos Profetas — originalmente fundada por Joseph Smith — para promover práticas como o convênio eterno, o casamento celestial, a vida comunitária e a construção de uma casa de investidura.

Os irmãos deixaram o cabelo crescer e começaram a se ver como os verdadeiros líderes da igreja. Ron, então, começou a afirmar que havia se comunicado com Deus. Ele e outros membros da Escola de Profetas de Crossfield haviam sido instruídos sobre como obter revelações.

"Revelação da remoção" No início de 1984, Ron Lafferty afirmou ter recebido uma mensagem divina escrita em um bloco de notas, que ficou conhecida entre seus seguidores e no processo judicial como a "revelação da remoção". Diferente de um impulso momentâneo, o texto apresentava uma linguagem formal e pseudo-bíblica, ditando que era a "vontade do Senhor" que certas pessoas fossem "removidas" para que o trabalho de Deus pudesse prosseguir na família Lafferty.

A revelação não visava apenas Brenda e a bebê Erica. O manuscrito nomeava quatro indivíduos específicos que Ron considerava obstáculos espirituais ou responsáveis por seus fracassos pessoais:

Brenda Wright Lafferty: por ter incentivado a esposa de Ron a deixá-lo e por se opor ao fundamentalismo dos irmãos; Erica Lafferty: a filha de Brenda, de 15 meses; Chloe Low: uma amiga próxima da ex-esposa de Ron, que a apoiou durante o processo de divórcio; Richard Stowe: o presidente da estaca da Igreja SUD que presidiu o conselho que resultou na excomunhão de Ron.

Ron apresentou a mensagem aos membros da Escola dos Profetas, esperando que o grupo validasse a instrução como um mandamento profético. No entanto, o líder do grupo, Robert Crossfield, e outros membros rejeitaram o texto, classificando-o como uma manifestação "do mal" ou de origem não divina. Essa rejeição foi o estopim para que Ron e Dan se afastassem definitivamente da organização e decidissem agir por conta própria para cumprir o que acreditavam ser um "imperativo moral". No dia dos crimes, os irmãos chegaram a procurar Chloe Low em sua residência, mas ela não estava em casa, o que restringiu o ataque final apenas à residência de Brenda.

Crimes Alguns meses após ter recebido a "revelação da remoção", Ron e Dan colocaram um plano em ação. Em 24 de julho de 1984, ambos dirigiram até o apartamento de Brenda e Allen, localizado na cidade de American Fork, no Utah, para matar a cunhada, acompanhados por dois amigos, Charles Carnes e Richard Knapp, que ficaram aguardando dentro do carro para a fuga.

Dan e Ron bateram à porta de Brenda e, embora a princípio ninguém atendesse, Lafferty abriu a porta na segunda tentativa. Ela não queria deixar Dan entrar, mas ele a empurrou. Logo em seguida, Ron também entrou, espancando violentamente sua cunhada. Depois disso, no entanto, Ron não quis matar Brenda, então Dan a estrangulou usando o fio do aspirador de pó e cortou sua garganta, depois fazendo o mesmo com a filha de Allen, sua sobrinha Erica. Ambos saíram da casa com as roupas ensanguentadas, assustando os outros dois homens no carro.

Allen Lafferty, marido e pai das vítimas, chegou em casa depois do trabalho à noite e encontrou a casa estranhamente silenciosa. Ele viu sua esposa caída no chão da cozinha em uma poça de sangue e sua filha bebê deitada em seu berço, também em uma poça de sangue. Como nenhum dos telefones da casa funcionava, ele ligou para a polícia da casa de um vizinho. Embora Allen tenha se tornado suspeito imediatamente, acabou liberado posteriormente, após levar a polícia aos verdadeiros autores dos crimes, seus irmãos Ron e Dan Lafferty.

Algumas semanas após o duplo homicídio, Ron e Dan foram capturados em Nevada e levados de volta a Utah, mas continuaram negando ter cometido os assassinatos. Os irmãos foram acusados ​​de dois homicídios dolosos, dois roubos qualificados e duas conspirações para cometer homicídio. Embora devessem ser julgados juntos, Ron acabou tentando o suicídio na prisão, o que atrasou o julgamento.

Julgamento de Dan Lafferty Em 1985, Dan Lafferty representou a si mesmo em seu julgamento, delegando a seus advogados nomeados pelo tribunal apenas a função consultiva. Antes de fazer sua declaração inicial, Dan fez uma moção sem que o júri estivesse presente, pedindo ao juiz que rejeitasse as acusações contra ele, uma vez que o Estado não havia conseguido demonstrar um caso prima facie contra ele. Disse, ainda, que ambos poderiam estar lidando com o cumprimento de uma revelação em vez de um crime, e que isso estaria em harmonia com todas as crenças cristãs desde o início dos tempos.

Lafferty alegou que os dois assassinatos que cometeu ocorreram como cumprimento da "Revelação da Remoção", e solicitou testemunhar sobre a veracidade de tal revelação, recebida pelo irmão, Ronald, ordenando a remoção de sua cunhada, sua sobrinha e dois outros residentes do Condado de Utah. No entanto, nenhum depoimento foi oferecido, e o advogado consultivo de defesa, Mike Esplin, declarou mais tarde que Lafferty havia aparentemente desistido de sua intenção de depor.

Allen Lafferty, irmão de Dan e Ron, e marido e pai das vítimas, testemunhou: leu um trecho de outra suposta revelação do irmão, Ron, segundo a qual Brenda Lafferty, ao se opor à entrada do marido na Escola de Profetas, estava interferindo em um plano divino que exigia a participação dos seis irmãos Lafferty. Ele disse ainda que, quatro meses antes de sua esposa e filha serem assassinadas em sua casa em American Fork, ele se encontrou com Dan e outro irmão, Watson, na casa de sua mãe em Provo, e foi informado da revelação que ordenava a morte de sua esposa e filha. Mesmo sabendo sobre os planos violentos de Ron, no entanto, Allen nunca chegou a comentar sobre o aviso com sua esposa.

Outros dois irmãos Lafferty, Mark e Timothy, também testemunharam: Mark reconheceu que estava envolvido com a Escola de Profetas, enquanto Timothy Lafferty se recusou a responder às perguntas sobre o grupo. Outros membros da entidade, no entanto, disseram em seus próprios depoimentos que ele esteve presente em várias reuniões, incluindo uma na qual Ron e Dan Lafferty pediram ao presidente e a outros membros do grupo que cumprissem outra revelação que exigia a dedicação de um instrumento para cometer os assassinatos. Naquela reunião, em 5 de abril de 1984, o presidente da Escola de Profetas, David Olson, disse que Dan Lafferty havia sugerido que uma navalha fosse trazida e dedicada ao cumprimento daquela revelação.

Charles Carnes, um dos dois homens que acompanhou os irmãos Lafferty na noite de 24 de julho de 1984, ficando no carro — e que havia sido acusado dos assassinatos juntamente com Dan e Ron mas se declarou culpado de três crimes de primeiro grau em troca de depor contra os irmãos — testemunhou que, durante um estudo bíblico na noite anterior aos assassinatos, Dan Lafferty perguntou ao irmão se era necessário que as gargantas das vítimas fossem cortadas, ou se podiam atirar nelas. Ron teria respondido que não, que "tinha que ser feito daquele jeito", pois era isso que a revelação pretendia.

As deliberações do júri começaram cinco dias após o início do julgamento e duraram nove horas. Dan acabou sendo condenado à prisão perpétua depois que o júri foi incapaz de determinar um veredito durante a fase de determinação da pena. Lafferty nunca demonstrou qualquer sinal de remorso.

Julgamento de Ron Lafferty Ron, que teve o julgamento adiado devido a uma tentativa de suicídio, foi condenado à morte apesar da estratégia de seus advogados de defesa para convencer os jurados de que ele sofria de "delírios paranoicos e acreditava ter recebido um 'imperativo moral' divino para matar".